O governo federal está se preparando para enfrentar a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado. De acordo com reportagem do jornal O Globo publicada neste domingo (25.abr.2021), o Planalto estruturou uma operação de guerra

Entre as ações determinadas está preparar o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello para responder aos questionamentos. Para isso, o governo teria criado um comitê com representantes de diversos ministérios. O Planalto estaria organizando um arsenal de documentos sobre a atuação federal no enfrentamento da pandemia para ser usado por Pazuello em seu depoimento.

A CPI da Covid investigará a conduta do governo durante a pandemia e o uso de recursos da União transferidos para Estados e municípios. A 1ª reunião está marcada para a próxima 3ª feira (27.abr). Por causa da pandemia, a comissão será semipresencial.

A principal estratégia do plano elaborado pelo governo federal é blindar o presidente Jair Bolsonaro.

Há acordo envolvendo a maioria dos integrantes da comissão para que o senador Omar Aziz (PSD-AM) comande o colegiado. O amazonense não é opositor, mas é crítico ao governo.

O acordo também envolve o nome de Renan Calheiros (MDB-AL) para ser relator. Renan foi próximo dos governos petistas e, agora, tem feito acenos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os 2 se apresentam como independentes –assim como outros 3 titulares da CPI. Bolsonaro tem o apoio de 4 membros e outros 2 fazem parte da oposição. Confira abaixo os titulares e suplentes da CPI.

De acordo com O Globo, o plano é desviar o foco do governo federal para a atuação de Estados e municípios.

Pazuello, ministro da Saúde que ficou mais tempo no cargo em período de pandemia, é um dos alvos principais da CPI. Por isso, o governo quer prepará-lo para as perguntas dos senadores, principalmente dos da oposição.

O ex-ministro deve se basear em documentos e dados para reforçar a narrativa de que a gestão Bolsonaro não foi omissa ao lidar com a pandemia ou com a crise do oxigênio em Manaus, em janeiro.

Segundo a reportagem, os membros do comitê de crise que auxiliará Pazuello ficam sob o comando do Ministério da Casa Civil, chefiada pelo ministro Luiz Eduardo Ramos. Participam servidores da Saúde, Defesa, Economia, do Itamaraty, Comunicações, da AGU (Advocacia Geral da União), CGU (Controladoria Geral da União) e Secretaria de Governo, entre outros.

O grupo já teria um plano de trabalho estruturado, que inclui reuniões semanais.

Também faria parte do grupo o ministro Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral da Presidência. Com 5 mandatos como deputado federal, ele tem experiência em CPIs. Integrou, por exemplo, as da Petrobras, dos Maus-Tratos de Animais e dos Correios.

Além de participar da preparação de Pazuello, Lorenzoni deve assumir uma parte da articulação política na CPI.

Outra frente de atuação do governo federal é tentar minar o poder de Renan Calheiros. Para isso, o Planalto teria acionado o ex-presidente José Sarney. Eles mantêm uma relação de proximidade. A reportagem conversou com pessoas próximas aos 2, que relataram que a investida não deve ter sucesso.

Sarney não estaria disposto a se envolver em questões do Congresso e Calheiros não teria intenção de abrir mão da relatoria.© Fornecido por Poder360

ACAREAÇÃO ENTRE PAZUELLO E WAJNGARTEN

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou no sábado (24.abr.2021) que será preciso fazer uma acareação entre Pazuello e Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência.

Randolfe lembrou que o ex-ministro da Saúde afirmou, em seu discurso de despedida, ter sofrido pressão para fazer repasses de recursos destinados à pandemia para uso político. Em entrevista publicada na 5ª feira (22.abr), porém, o ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro Fabio Wajngarten acusou a equipe comandada pelo ex-ministro de “incompetência” e “ineficiência” na aquisição de vacinas contra o coronavírus.

“No momento correto, acho que será necessário fazer uma acareação entre o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten”, afirmou o senador ao Poder360.

O governo federal assinou em março contratos com as farmacêuticas Pfizer e Janssen (braço farmacêutico da Johnson & Johnson) para a compra de 138 milhões de doses de vacinas contra a covid-19. São 100 milhões de doses do imunizante da Pfizer e 38 milhões do da Janssen.

A negociação, no entanto, foi marcada por embates entre a empresa e o governo federal. Em agosto de 2020, Carlos Murillo, CEO da Pfizer Brasil, afirmou que enviou proposta de fornecimento do imunizante a Bolsonaro e que o mandatário não havia respondido.

Em janeiro de 2021, o então ministro da Saúde seguiu criticando as cláusulas propostas pelos laboratórios: “O que fica claro: ou nós produzimos as nossas vacinas ou nós não vamos vacinar o povo brasileiro”, disse na ocasião.

Agora, Fabio Wajngarten diz que tentou ajudar nessa operação e joga a responsabilidade nas costas de Pazuello. O ministro [do STF] Gilmar Mendes diz que Wajngarten o procurou aflito a respeito dessa venda de vacinas da Pfizer. […] Talvez o mais apropriado para a CPI seja ouvir juntos, Pazuello e Wajngarten, fazendo uma acareação entre eles”, concluiu Randolfe.

Gilmar Mendes disse ao Poder360 que foi procurado por Wajngarten para auxiliar no processo de compra de vacinas da Pfizer. “Ele esteve comigo mais de uma vez. E parecia muito aflito com essa crise. Ele achava que havia um colapso no sistema de governança do Ministério da Saúde e imaginava que eu pudesse ajudar”, afirmou.