SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Lucas Mendes, 76, defendeu Diogo Mainardi, 58, após o escritor e jornalista ter causado polêmica no Manhattan Connection (TV Cultura) desta quarta-feira (28). Ao se despedir do advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, mais conhecido como Kakay, Mainardi proferiu palavras de baixo calão.

“Como diria Olavo de Carvalho, vai…”, disse o jornalista, que teve a fala cortada por um sinal sonoro. Porém, é possível identificar por leitura labial que ele diz a frase “vai tomar no c…”.

De acordo com Mendes, a fala de Mainardi foi tirada de contexto por um corte feito em outro momento do programa. Na primeira parte, Fábio Porchat, 37, que também era convidado da atração, abordou a liberdade de expressão.

Foi o apresentador e humorista quem primeiro falou sobre Olavo de Carvalho e o relacionou ao xingamento dito mais tarde por Mainardi. “Neste caso, foi cortada uma parte que estava ligada à segunda que ficou. E gerou a fedentina”, explica Mendes.

Mendes diz que só soube do corte da primeira parte ao ver a repercussão após a exibição do Manhattan Connection. Antes, diz o jornalista, havia recebido uma ligação da TV Cultura e da produtora do programa perguntando se poderiam cortar a fala de Mainardi.

À Folha de S.Paulo, Mendes afirma que defendeu que a fala deveria permanecer. Ele inclusive pediu que não fosse cortada por sinal sonoro, o que não foi atendido. Ele diz, porém, que em nenhum momento foi avisado de que a fala de Porchat não estaria na edição final do programa, que tinha oito minutos a mais do que deveria.

“A Cultura cortou e o [xingamento] de Diogo ficou gratuito”, comenta. “Esse problema de corte pode ter consequências que você não imagina. Se cortou o c… do Porchat corta o c… do Diogo (risos). O bode seria menor.”

Ele diz que, normalmente, o programa é enviado já editado para a TV Cultura, mas que, neste caso, por causa dos minutos excedentes, o corte foi feito na emissora. Mais cedo, a emissora chegou a emitir nota em que afirmava que “não concorda com o ocorrido e já tomou providências junto à empresa produtora do Manhattan Connection.”

“Conseguimos viver 28 anos na Globo com raríssimos cortes e pouquíssimos pedidos de desculpa”, avalia Mendes. “Mesmo sendo uma empresa muito mais cheia de ‘tremeleques’, a gente não teve tantos problemas quanto em 3 meses de Cultura.”

Mais cedo, o canal público paulista disse que acionou a produtora do Manhattan Connection para que medidas fossem tomadas. “A TV Cultura não concorda com o ocorrido e já tomou providências junto à empresa produtora do Manhattan Connection”, disse, em nota, sem especificar quais seriam essas medidas.

A reportagem procurou novamente a TV Cultura para comentar a declaração de Lucas Mendes, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Mendes defendeu ainda a fala de Mainardi, assim como “tudo que está no programa”, e afirma esperar que as íntegras do programa que estão no ar não sejam modificadas. Mesmo assim, pediu desculpas a quem não tiver gostado das palavras de baixo calão. “É claro que não houve a intenção de insultar a audiência”, afirma. “Peço desculpas a quem se sentiu insultado.”

Ele ainda comparou o programa a uma “briga de boxe”. “Kakay estava bem na briga, ele levou um soco abaixo da cintura, mas essa coisa do tomar no c… é uma coisa que o juiz deu falta.”

Porém, ele descarta qualquer punição ao jornalista envolvido. “A gente tem um pacto, protegemos o fato de cada um poder falar o que quiser”, explica. “Não é bacana insultar o convidado, mas o Diogo tem essa característica. Agora o que vou fazer? Vou pedir para o Diogo ficar de costas no cantinho do quarto dele.”

A declaração de Lucas Mendes vai ao encontro da explicação dada por Diogo Mainardi em sua coluna no site Antagonista. O escritor e jornalista afirmou que o xingamento se referia a algo que havia sido dito na primeira parte do programa.

“O ‘convidado’ era Kakay, que durante o programa vaticinou a prisão de Sergio Moro. O xingamento era uma referência singela a algo que foi dito na primeira parte do programa, por Fábio Porchat”, disse Mainardi.

Em nota, Kakay se manifestou sobre o tratamento recebido no Manhattan Connection. “Nunca o grande Manoel de Barros foi tao lembrando por mim como no debate de ontem: ‘Só uso as palavras para compor meus silêncios’. Não serei eu, em nenhuma circunstância, que irei censurar a falr de um ‘humorista, como o Mainardi, que abusou do direito de ser indelicado e agressivo no programa. Ele merece meu mais profundo desprezo.”

“No final, ele se mirou em um de seus ídolos, o tal Olavo de Carvalho, e me agrediu verbalmente. Durante todo o programa, ficava reclamando, mas sem conseguir se manifestar de maneira clara e com um raciocínio lógico”, prossegue.

“Talvez ele precise de tratamento para superar a queda e a desmoralização dos seus ídolos, como insinuou [Fernando] Haddad quando foi ao programa, ou talvez seja mesmo só essa figura patética e decadente”, diz.

“O Brasil é um país triste hoje em dia por ter um presidente do nível de [Jair] Bolsonaro. O tal Diogo finge que é um crítico de Bolsonaro, mas são pessoas do mesmo naipe. Ele, Olavo, [Sergio] Moro e Bolsonaro se merecem. Eu fico com o grane Mário Quintana: ‘Eles passarão, eu passarinho’.”