TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) – Caos generalizado, pânico, gritos, correria, ambulâncias com feridos e corpos sem vida, idosos tropeçando ao tentar fugir, crianças chorando em busca dos pais, sirenes de carros de polícia e de helicópteros.

As imagens e os sons estão encravados na mente do carioca Daniel Rabinovitsch, 21, que estava no Monte Meron, na Galileia, ao norte de Israel, no momento em que 45 pessoas foram mortas pisoteadas durante um festival religioso que reuniu 100 mil fieis, na madrugada de sexta-feira (30) em Israel, noite de quinta (29) no Brasil.

Mais de 150 feridos estão sendo tratados em hospitais pelo país e ainda há pessoas desaparecidas. Trata-se do evento civil com mais mortes no país desde sua criação, em 1948.

“Eu poderia ser um dos mortos. Tinha estado no lugar onde ocorreram as mortes meia hora antes”, conta Rabinovitsch, estudante de uma “yeshivá” (seminário rabínico) que viajou mais quase três horas até o Monte Meron para se divertir com amigos.

“Foi uma sensação de atentado terrorista, de salve-se quem puder. Fui curtir uma festa que virou um pesadelo.”

O incidente aconteceu no auge dos festejos do feriado de Lag Baomer, um dos mais alegres do calendário judaico, quando costuma-se acender fogueiras, passear na natureza e celebrar com familiares. A festa também marca o dia do falecimento do venerado rabino Shimon Bar Yochai, que viveu no século 2 e teria sido o primeiro a ensinar o misticismo judaico, a Cabala.

Tradicionalmente, dezenas de milhares de judeus mais religiosos –em geral ultraortodoxos, conhecidos como “haredim”– costumam fazer uma peregrinação até o túmulo do rabino, no Monte Meron, para cantar, dançar, ouvir rabinos e pedir bênçãos.

Foi o que Daniel Rabinovitsch queria fazer ao visitar o local pela primeira vez. À meia-noite, ele foi até o pátio de uma das seitas ultraortodoxas mais radicais, a Toldot Aharon, e dançou ao som de músicas tradicionais com amigos, mas notou o perigo.

“As arquibancadas estavam mais lotadas do que em final de Copa do Mundo. Para conseguir ver algo, tive que escalar um dos lados e me segurar na estrutura”, conta Daniel, que migrou para Israel há três anos.

Por volta das 0h40, o brasileiro ficou com fome e decidiu ir a um local onde havia distribuição de comida. Foi a sua sorte. À 1h07, um grande grupo de fiéis que tentava sair do local ficou preso numa das saídas. Alguns tropeçaram e caíram no chão. Os que vinham atrás não perceberam e continuaram a pressionar para que a multidão avançasse.

O resultado foi 45 mortos –todos homens religiosos com idades entre 9 e 65 anos– pisoteados ou sufocados. A maioria era israelense, mas também sucumbiram um cidadão da Argentina, dois do Canadá e quatro dos Estados Unidos.

O pânico que se seguiu foi presenciado também por outro carioca, Celso Cusnir, 58, que trabalha para uma empresa de ônibus e foi deslocado para cuidar de parte da logística de transporte na noite da tragédia. Há 30 anos morando em Israel, ele nunca havia visto algo parecido.

“Foi uma crônica de mortes anunciadas. Eu já havia estado em Meron como visitante e sabia que o lugar era muito estreito. Mas, desta vez, estava mais cheio ainda”, diz Celso, lembrando que a peregrinação foi a maior festividade em Israel desde o começo da pandemia do coronavírus.

No ano passado, o governo cancelou a festa por causa do temor de infecções. Mas, como Israel é o líder mundial na vacinação –cerca de 60% da população já recebeu as duas doses da vacina da Pfizer/BioNTech– e o país voltou praticamente à normalidade, com taxas mínimas de contágio e de mortes, as autoridades, desta vez, fizeram vista grossa para o evento em massa, apesar dos alertas de autoridades sanitárias.

Israelenses acendem velas no Monte Meron em memória às 45 vítimas pisoteadas durante festival religioso David A polícia até tentou controlar a multidão colocando uma série de divisórias nas entradas e saídas do Monte Meron. Alguns dizem, no entanto, que essas medidas apenas pioraram a circulação das pessoas, levando ao acidente. Outros culpam os rabinos e os visitantes, que teriam ignorado as instruções da polícia sobre a quantidade de pessoas que podiam estar lá.

“Fizeram toda uma infraestrutura no acostamento da estrada para as pessoas não passarem por lá”, lembra Celso. “De repente, vejo um monte de pessoas invadindo a estrada, no sentido contrário ao túmulo. Foi aí que escutei uma policial dizendo que já havia 14 mortos. Depois, os números só cresceram”.

A tragédia pode levar até mesmo a uma CPI no Parlamento. A grande pergunta a ser respondida é quem é o responsável pelo local.

A polícia diz que ele é administrado por seitas religiosas que ignoram o poder público. E que os políticos não querem se intrometer para não melindrar os “haredim”, 12% da população do país, e serem chamados de preconceituosos diante da liberdade de culto vigente no país.

Em entrevista ao Canal 12 de TV de Israel, o ex-comandante da polícia Shlomo Aharonishki disse que o local é um “buraco negro de responsabilidade” e que, todos os anos, a polícia respira aliviada quando o Lag Baomer termina sem incidentes.

Mas nem sempre foi assim. Em 1911, por exemplo, 11 pessoas morreram no local durante a festa. E todos os anos aparecem vídeos mostrando o empurra-empurra no local.

Cusnir testemunhou a tentativa de fuga em massa. A certa altura, viu um ônibus-ambulância da Estrela de Davi Vermelha com mortos e feridos dentro tentando passar pela estrada tomada pela turba. Depois, presenciou a luta por um lugar nos poucos ônibus que havia para evacuar as pessoas.

“Achei que ia acontecer outro pisoteamento nos ônibus lotados. Vi gente chorando, pedindo para motoristas levarem crianças perdidas.”

A tragédia em Meron foi manchete por todo o mundo. Diversos líderes enviaram condolências, entre eles o presidente americano Joe Biden, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e o papa Francisco.

O Itamaraty divulgou nota afirmando que “o governo e o povo brasileiro solidarizam-se com os familiares e os amigos das vítimas, manifestam ao governo e ao povo de Israel suas condolências”.