Super-heroína, guerreira, mulher maravilha… esses são alguns adjetivos usados para descrever toda a rotina árdua que as mães tiveram que adotar durante a pandemia da Covid-19. Mas será que romantizar toda a sobrecarga carregada por essas mulheres é correto?

Criar filhos nunca foi uma tarefa fácil, entretanto, na pandemia essa função se tornou mais complexa, ganhando novos contornos. Sem rotas alternativas, sem rede de apoio, sem escola, sem amigos e tendo como único cenário possível, a casa, as relações familiares atravessam um momento particularmente triste, onde de um lado temos adultos tomados pelas incertezas e um extremo cansaço e do outro, temos crianças tomadas pelas ausências que são sentidas com todo corpo.

Assim como em 2020, nesse ano, o Dia das Mães vai diferente. Não só pelas circunstâncias em que o mundo se encontra, mas pela mudança de comportamento repentina. A professora Maria José, de 28 anos, divide seu tempo entre o trabalho e cuidados com sua filha, Clara, de 10 anos, e sente na pele como é a sobrecarga de ser mãe e professora nessa pandemia.

“Em casa você faz muitas coisas ao mesmo tempo, você ensina a criança, você responde o seu aluno, porque eles não tem horário para mandar perguntas e atividades, mesmo você estipulando um horário para tirar dúvidas, eles mandam mensagens de manhã, meia noite, duas da tarde, meio dia… eu estava fazendo várias coisas ao mesmo tempo, era mais puxado. No caso, era uma sobrecarga mesmo, da mente.” Declara, Maria.

Maria e Clara

A pandemia tem sobrecarregado de tantas maneiras, que ser mãe agora tem exigido ainda mais: mais paciência, mais flexibilidade, mais atenção e mais acolhimento, para lidar com as particularidades dos filhos em meio ao isolamento social. Como é o caso da pedagoga Sueli Oliveira, de 40 anos, mãe da Amanda, de 15 anos.

“Para mim tem sido um desafio, pelo fato da minha ter dificuldade na socialização com outras pessoas, é bem difícil, porque ela já tem essa dificuldade, e devido à pandemia, a ficar bastante tempo em casa, piorou o relacionamento dela com outras pessoas, o único contato que a gente tem, a não ser com a família, é através das redes sociais, e isso se agravou mais ainda”. Pontua, Sueli.

Sueli e Amanda

Essa nova realidade vem afetando as mães de maneira mais relevante, não somente pelo fato de as mulheres serem responsáveis pela maior carga do trabalho doméstico, mas também no cuidado com os filhos que foram afastados do ambiente escolar presencial. Maria precisou mudar a rotina, para cuidar de si, da casa e educar a filha de forma mais aproximada, organizando uma rotina para os estudos de Clara.

“Durante as aulas à distância, eu estabeleci um horário para ajudar a Clara nas atividades, porque ela não consegue fazer sozinha, pois não tem aquele contato com a professora, não tinha horário estabelecido para perguntas e dúvidas. A professora mandava atividade de manhã, e assim que ela mandava, eu tirava o horário das 9 às 10, sentava com a Clara, ajudava a fazer as atividades, pesquisava, via textos informativos, e ajudava a Clara, todos os dias.”  Conta, Maria.

A maternidade nunca foi fácil para as mulheres, o desafio é constante, com incertezas, inseguranças, medos e comprometimento da saúde mental das mães. As mulheres recebem um peso social muito significativo, seja na educação, saúde, e até na culpabilização dos atos dos filhos. É importante que a sociedade passe pela desconstrução da romantização da maternidade que sobrecarrega a mãe.  Que neste dia das mães, possamos refletir sobre o real papel que tem sido associado e imputado à mulher, mãe, em especial durante a pandemia. E que os termos heroína, guerreira e mulher maravilha, não sejam usados para tentar confortar aquela que está sentindo na pele todos os dias o fardo de toda a sobrecarga que lhe é atribuída pelo simples fato de ser mulher.

Por Suene Almeida; Estudante do 4º período de jornalismo – Universidade Federal do Acre; Graduada no curso de Licenciatura em Letras/Espanhol – Universidade Federal do Acre