SÃO PAULO, SP (UOL-FOLHAPRESS) – O ex-jogador Giba, que marcou história na seleção brasileira de vôlei, deu uma declaração transfóbica ao falar sobre Tifanny Abreu, jogadora transexual que atua pelo Sesi/Bauru.

Em uma conversa com o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-ponteiro disse que o fato de Tifanny atuar em equipes femininas é “completamente fora do normal” e sugeriu um campeonato disputado apenas com transexuais.

“Se perguntar pra mim, [a resposta é]: faz um campeonato deles [transexuais]. Não tenho problema com gênero, com nada, mas é completamente fora do normal. Joguei com ele [Tifanny] quando ele era homem ainda, hoje em dia joga com mulheres. Ele foi fazer a cirurgia com 30 e poucos anos, e por mais que você faça o tratamento, ele não vai perder aquela força a mais que temos em relação às mulheres”, iniciou.

“Uma pergunta que faço para todo mundo pensar um pouco: se uma mulher é pega no doping com testosterona, ela fica quatro anos fora das quadras. E por que isso não é o contrário? É um questionamento que eu deixo para vocês pensarem um pouquinho”, prosseguiu o ex-atleta.

Depois da afirmação, Eduardo Bolsonaro tomou a palavra e disse que trata-se de um pensamento que “nega a ciência”.

“O Giba foi muito suave, mas eu explico isso um pouquinho mais profundo. Isso é o que a gente fala na política de um pensamento doentio de esquerda, de ideologia de gênero, é disso tudo. Eles negam a ciência. A ciência é genética, são os hormônios. […] Eles acreditam que a sua sexualidade é uma construção social”, falou.

POR QUE HÁ TRANSFOBIA?

Amanda Gondim, advogada atuante em Direitos das Mulheres, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência, descreveu para Universa a transfobia como o ódio direcionado à identidade de gênero.

“É diferente da homofobia, que é direcionada a orientação sexual. A transfobia envolve a identidade da pessoa, que é repelida para ser inserida em nossa conjuntura social de padrão cis”, disse.

Este preconceito pode se manifestar de diferentes formas, começando por ‘piadas’ e comentários discriminatórios – no caso de Giba, há a ideia de segregação ao sugerir um campeonato específico para pessoas transexuais.

EXEMPLO FALSO?

Ao mostrar rejeição em relação ao fato de Tifanny atuar em equipes femininas, Giba utilizou uma notícia considerada como falsa em 2018 pelo site Boatos.org, especializado em desvendar fake news.

“É um caso bem complicado. Eu sou presidente da Comissão Mundial dos Atletas na Suíça e a gente teve essa discussão. Tinham federações que aceitavam, mas as confederações não. Tivemos essa discussão. […] Um caso que deu embasamento para que a gente não deixe isso acontecer foi o que aconteceu, se não me engano, em um campeonato de luta. Tipo MMA. Uma menina que fez isso da Bélgica, ela deu uma porrada na cabeça de uma tailandesa e a menina morreu com traumatismo craniano. E aí? Como a gente vai deixar isso acontecer?”, disse Giba.

De acordo com o site, no entanto, a tal luta sequer aconteceu, já que as lutadoras citadas na notícia simplesmente não existem.
Além disto, as fotos vinculadas à notícia “original” são do velório de outra pessoa – no caso, um diretor de uma delegacia, e não da tal lutadora.