SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Maurício Meirelles, 37, completa nesta semana um mês à frente do Foi Mau, atração de humor que ele emplacou na nova grade da RedeTV!. O humorista e publicitário diz estar feliz com a boa acolhida que o programa teve, principalmente porque quase tudo foi idealizado por ele.

“Estou muito feliz porque o programa é muito a cara do que eu gostaria de estar fazendo”, diz Meirelles, por telefone à Folha de S.Paulo. “O meu primeiro papo com a RedeTV! foi sobre ter liberdade e o meu objetivo era me divertir.”

O programa se soma às atividades de Meirelles na internet e na produtora dele, a Dromedário, pela qual fez roteiros para Tatá Werneck e Anitta. Ele diz que foi preciso diversificar as atividades para enfrentar a crise econômica gerada pela pandemia de Covid-19.

“Quem trabalha dependendo só de stand up ou de teatro deu uma ferrada grande”, lamenta. “O que me fez crescer foi a necessidade de me adaptar, fiz shows em drive-in, muito show online para empresas, e fui bolando as minhas possibilidades.”

As conversas sobre um programa na emissora haviam começado em março de 2020. Porém, com a pandemia, as negociações esfriaram. No começo de 2021, ele apareceu pedindo, com muito bom humor, emprego a Sônia Abrão. “Foi só uma pressãozinha”, conta.

Mas deu certo. Logo depois, ele apareceu assinando contrato ao lado de um dos sócios da emissora, Marcelo de Carvalho, no Mega Senha. No dia 12 de abril, estreou a atração em horário nobre.

O apresentador diz não estar focado em bater a forte concorrência da faixa noturna. “Estou muito menos preocupado com a audiência na TV do que com a repercussão”, diz. “Estou olhando as redes sociais durante a exibição e todo mundo que assiste ao programa gosta muito. Ele tem feito barulho na internet. Isso é uma coisa que a RedeTV! sentia falta desde o Pânico.”

Meirelles se refere ao programa que marcou época com seu humor politicamente incorreto, que teve exibição entre 2003 e 2012 na emissora. Depois, ele ainda migrou para a Band, onde o próprio humorista chegou a ser repórter da atração.

O humorista costuma dizer que “faliu” o programa, assim como outras atrações pelas quais passou, como o CQC (também da Band) e o Vídeo Show (Globo). “Eu estava cansado de falir o programa dos outros, por isso que agora resolvi fazer o meu”, diz o artista, em tom de brincadeira.

Por enquanto tem funcionado. Ele adaptou alguns quadros que já apresentava em seu canal no YouTube para a nova atração. “A ideia era fazer uma espécie de timeline da internet”, explica.

“A gente costuma gravar uns cinco quadros com cada um dos dois convidados do programa”, diz. “Depois pegamos o que aconteceu de melhor e jogamos na TV. Vamos testando esses pequenos cortes de forma não retilínea, o que gera mais dinâmica e prende mais o telespectador.”

Por causa da pandemia de Covid, os convidados são testados antes de entrarem no estúdio. Além disso, pessoas mais velhas ou com comorbidades não têm podido participar. Mesmo assim, muitos famosos têm se oferecido para aparecer. “Como o programa vem sendo elogiado, muita gente abriu o olho”, diz.

Pelo menos neste começo não foi possível contar com plateia. “Quando a gente fazia esses quadros no teatro, sabíamos se estávamos indo bem de acordo com a risada que era oferecida”, lamenta.

Por outro lado, ele comemora que o horário das gravações dá possibilidade de interação maior no quadro “Webbullying”, em que ele pega o celular de um convidado e se faz passar por ele nas redes sociais. No dia em que David Brazil participou, por exemplo, Anitta estava online e respondeu na hora.

Recentemente, o próprio Meirelles foi vítima de um certo bullying virtual após criticar o governo federal pela falta de medicamentos para intubação de pacientes. Muitos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não gostaram e entraram na publicação para falar mal dele, que estava com o pai, Eduardo Meirelles, internado por Covid.

“As redes sociais são o lugar onde encontro as maiores frustrações da sociedade”, avalia. “Todos nós que usamos não temos um pingo de noção de quem está do outro lado. É como uma mesa de bar com caras que não têm nada a ver com você.”

“Acho que passamos bastante do limite”, continua. “Nossa função como cidadão é questionar qualquer governo. O Brasil nunca foi perfeito a ponto de achar que um governo não merece ser questionado. Eu sei que as pessoas estão chateadas e frustradas, mas a partir do momento que você é cidadão não pode ficar quieto aceitando qualquer coisa.”

Meirelles diz que acredita na recuperação do pai. “Acredito mesmo que ele vai sair dessa”, conta. “Principalmente pela quantidade de força, carinho e fé de muita gente, incluindo amigos, familiares e pessoas que estão preocupados e todos os dias me mandam mensagens perguntando se preciso de algo.”

Ele também comenta uma crítica frequentemente feita ao CQC, que é de ter dado visibilidade nacional a figuras como o próprio presidente Bolsonaro. “O CQC era um programa que dava três pontos de ibope na TV, não era para as massas”, lembra. “A função do CQC sempre foi combativa, a gente combateu o Bolsonaro, não passava pano.”

“Acredito que o Bolsonaro ou qualquer outro político ia aparecer de qualquer jeito”, diz. “O tanto de gente que faz sucesso em nichos específicos e nós nem ficamos sabendo… Numa época em que as redes sociais são maiores que a TV, inevitavelmente o discurso ia ser maior que a plataforma.”

“Se ele pegasse o celular e fizesse os vídeos, como ele faz, ia dar certo da mesma forma”, avalia. “A questão é que o povo se identificou muito. É mesma coisa de culpar o Faustão por mostrar o Tiririca. Querer achar culpados é não querer entender o sintoma.”

Mesmo assim, ele diz que não gostaria de dar espaço a figuras como essas em sua nova atração. “Pretendo não dar voz a coisas que eu acho um absurdo”, afirma. “Se for para dar voz, que seja combatendo, jogando argumentos.”

Para ele, o público está mal-acostumado em razão de termos cada vez menos contato com a realidade, e cada vez mais contato com o virtual. “Acho que a gente vive num universo de algoritmos, a comunicação é baseada nos seus interesses”, explica.

“Facebook consegue ler que sou viciado em motos e me mostra tudo sobre esse assunto”, completa. “Na minha cabeça, está todo mundo falando sobre motos. Quando aparece alguém falando sobre bicicleta, eu acho um absurdo.”

“É o mesmo que, por gostar de sertanejo, querer cancelar o rock”, conclui. “Não é ruim para todo mundo, é ruim para você. Se não gosta é só não ouvir, mas não precisa cancelar.”