SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A presença de alguns tipos de anticorpos neutralizantes específicos contra o vírus Sars-CoV-2 pode ser um indicador de proteção contra a Covid-19, sugere um artigo publicado em 17 de maio na revista científica Nature Medicine.

Ao comparar os ensaios clínicos realizados com as vacinas anti-Covid, os pesquisadores de instituições australianas desenvolveram um modelo que relaciona a eficácia dos imunizantes à quantidade de anticorpos contra a Covid-19 que a substância é capaz de induzir no corpo. Grosso modo, as vacinas que se mostraram mais eficazes geraram maior quantidade de anticorpos neutralizantes.

A conclusão do artigo já era esperada por cientistas da área da imunologia. Os anticorpos específicos que desenvolvemos quando entramos em contato com um vírus ou uma bactéria estão entre as principais moléculas produzidas pelo corpo para evitar as doenças. Nem todos têm a capacidade de bloquear a ação do vírus; os que conseguem fazer isso são chamados de neutralizantes.

“O artigo traz um modelo que indica parcialmente a proteção, e não é surpresa nenhuma. Os anticorpos neutralizantes inibem a entrada do vírus e assim ajudam a evitar a doença”, afirma Daniel Santos Mansur, imunologista da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O pesquisador lembra que a resposta imunológica é complexa e composta por uma variedade de moléculas. Testes sorológicos, que medem somente anticorpos, podem até dizer se essas proteínas protetoras contra o patógeno foram geradas, mas são insuficientes para atestar o sucesso ou o fracasso da imunização em uma pessoa.

Em meio às incertezas com relação ao avanço da doença e a demora da campanha de vacinação, algumas pessoas têm esperado que um exame capaz de contar os anticorpos contra a doença no organismo seja um atestado de que a vacina recebida funcionou, e o artigo pareceu endossar essa visão.

Porém, os próprios pesquisadores reconhecem na publicação que os exames de anticorpos são incapazes de conferir essa segurança aos imunizados e afirmam no texto que são necessários estudos que avaliem a ação de outras moléculas após a vacina.

“A associação entre neutralização e proteção nos ensaios clínicos não prova que os anticorpos neutralizantes são os mediadores da proteção. É possível que a neutralização esteja relacionada a outras respostas imunes, levando a uma aparente associação”, escrevem os cientistas no artigo.

Testes comerciais são capazes de dizer se uma pessoa que teve a infecção ou recebeu uma vacina desenvolveu anticorpos específicos contra o Sars-CoV-2, mas os exames são contra-indicados para verificar se o imunizante funcionou.

Em nota publicada no dia 19 deste mês, a FDA (agência regulatória dos Estados Unidos) não recomenda o uso dos testes sorológicos para avaliar imunidade após vacinação. Esses testes foram desenvolvidos para identificar pessoas que já tiveram contato com o vírus, e não foram validados para atestar eficácia da vacina, afirma a agência.

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), uma das autoridades de saúde mais respeitadas no mundo, também não recomenda o teste para verificar a ação da vacina.

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) segue a mesma orientação: “A complexidade da imunidade pós-vacinal, ou mesmo após doença natural, não corrobora a realização dos testes, pois os resultados não traduzem a situação individual de proteção”, afirma a instituição em uma nota técnica publicada no fim de março deste ano.

Na pesquisa científica, o caminho para encontrar os anticorpos neutralizantes é trabalhoso –o soro do paciente, que contém os anticorpos, é despejado sobre uma placa com células que o vírus pode infectar e o próprio vírus ativo. Como o Sars-CoV-2 é altamente contagioso, o experimento só pode ser feito em laboratórios muito bem equipados, com alto nível de segurança.

Os testes comerciais que identificam os anticorpos neutralizantes fazem uma simplificação desse esquema. Um pedaço da proteína da espícula do vírus, que ele usa para entrar na célula humana, é colocada em contato com o pedaço da célula que ele pode infectar e o soro do paciente. Se ele tiver desenvolvido o anticorpo neutralizante, o pedaço do vírus não se liga ao pedaço da célula.

“O teste comercial pode ter o mesmo significado que o teste mais complexo, feito na pesquisa científica, mas, ainda assim, ele não avalia a resposta celular, com os linfócitos, que têm um papel importante na proteção contra o vírus”, diz Rafael Jácomo, médico e diretor técnico do Grupo Sabin.

O Sabin desenvolveu um teste do tipo que é comercializado no país, mas Jácomo afirma que a decisão de fazer o exame deve ser avaliada criteriosamente entre médico e paciente. Outros laboratórios que atuam no Brasil contam com testes semelhantes, mas não há indicação formal de seu uso. A principal orientação é que sejam feitos para saber se a pessoa já teve contato com o coronavírus no passado.

“Usamos vacinas há muito tempo e avaliamos a resposta dos imunizantes em pouquíssimas situações, muito específicas. Quando vacinamos não buscamos proteção individual, mas coletiva”, diz Jácomo.

Dados publicados mostram que as chances de ser internado ou morrer com o Sars-CoV-2 caem drasticamente depois da imunização completa, que ocorre cerca de um mês depois da segunda injeção para as vacinas usadas no Brasil, aplicadas em duas doses.

As novas variantes do Sars-CoV-2, algumas mais transmissíveis, são outro fator de atenção. Ainda não se sabe com precisão se as vacinas disponíveis são capazes de combater todas as novas versões do patógeno.