SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A morte do sambista Nelson Sargento, aos 96 anos, vítima de complicações pela Covid-19, mexeu com artistas e pessoas famosas. Eles expressaram por meio de suas redes sociais todo o carinho pelo general do samba e figura histórica da Mangueira.

“Foi uma figura emblemática. Mando um beijo para a família e aos fãs. Momento muito complicado que vivemos. Embora esteja celebrando meu aniversário, não tem como dissociar do que está acontecendo”, disse a cantora Ivete Sangalo no Encontro com Fátima Bernardes (Globo).

O roqueiro e líder do CPM 22, Fernando Badauí lamentou a perda. “Descanse em paz, Mestre Nelson Sargento! O senhor sempre alegra meus domingos”, publicou.

O cantor Marcelo D2, que sempre misturou o rap com o samba, se orgulha de ter podido dividir os palcos algumas vezes com Nelson Sargento.

“Mestre no sentido literal da palavra e arquiteto da música brasileira. Descanse em paz, mestre, a gente só morre quando nosso samba morrer e você vai ficar para sempre”, publicou o músico.

Chiquinho da Mangueira, presidente da escola entre 2013 e 2019, foi mais um que prestou suas condolências. “Continuaremos mantendo o seu legado, cantando seus sambas, mantendo viva entre nós seu amor pela Mangueira, pela arte e pela cultura”, disse.

O diretor da TV Globo Boninho disse que “o samba perde uma lenda”. “Meus sentimentos à família e à Estação Primeira de Mangueira”, completou.

VIDA E MORTE DE NELSON SARGENTO

Nelson Sargento morava no Salgueiro e, aos dez anos de idade, desfilou numa escola de samba do morro, a Azul e Branco. Ou seja, não fossem as reviravoltas que a vida dá, sua história teria tido cores bastante diferentes.

O enredo começou a mudar quando ele tinha 12 anos e se mudou para outro morro da zona norte do Rio de Janeiro, o da Mangueira.

Morto na manhã desta quinta (27), aos 96 anos, segundo comunicou sua assessoria de imprensa -ele estava internado com Covid desde a sexta (21)–, Nelson se tornaria, nas décadas seguintes, uma das figuras mais representativas da Estação Primeira de Mangueira. Ao completar 90 anos, em 2014, era o presidente de honra da verde e rosa.

A mudança de endereço se deu após a união de sua mãe, Maria Rosa da Conceição, com o português Alfredo Lourenço, morador da Mangueira. O padrasto lhe abriu dois mundos: o da pintura e o do samba.

Lourenço era pintor de paredes. Nelson aprendeu a ser, mas mostrou com o tempo ter talento também para pintar quadros. Construiu uma consistente obra de, como se diz, arte naïf.

E Lourenço era compositor. Merecedor de respeito por parte dos bambas mangueirenses, entrou de vez para a história da escola ao compor para o Carnaval de 1955, em parceria com o enteado Nelson, um dos mais belos sambas-enredos já feitos: “Cântico à Natureza”, mais conhecido como “Primavera”.

Para Nelson também virar um compositor respeitado, foi fundamental conviver com os veteranos do morro, como Carlos Cachaça, Saturnino, Aluisio Dias (que o ensinou a tocar violão), Babaú e, sobretudo, Cartola.

Foi por ter servido no Exército entre 1945 e 1949 que Nelson Mattos passou, tempos depois, a ser conhecido no samba como Nelson Sargento, alusão à patente que alcançou.

Mas conhecido de fato ele se tornou a partir da década de 1960. Primeiramente, em 1964 e 1965, cantando no Zicartola, o restaurante de Cartola e sua mulher, Zica.

Logo em seguida, entre 1965 e 1967, participando do histórico espetáculo “Rosa de Ouro”, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho e ao lado de Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho.

Com essa turma e alguns outros, integrou grupos que marcaram aquela época, como A Voz do Morro e Os Cinco Crioulos (neste, com Mauro Duarte no lugar de Paulinho da Viola), e projetos como o musical “Mudando de Conversa”.

Aos poucos seu trabalho de compositor foi sendo gravado. Paulinho esteve entre os primeiros e principais intérpretes. Em 1971, interpretou “Minha Vez de Sorrir” e, em 1972, “Falso Moralista”, samba em que Nelson mostra seu lado de cronista bem-humorado, o mesmo que fica explícito em outra de suas músicas, “Falso Amor Sincero”.

Sucesso maior veio em 1978. No disco “De Pé no Chão”, um dos mais importantes da cantora, Beth Carvalho lançou “Agoniza Mas Não Morre”. Para além de sua beleza, o samba de Nelson cativou muita gente por falar da defesa da cultura nacional num momento em que o Brasil iniciava sua reabertura política e, portanto, sua reconstrução como país.