SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O músico Leandro Lehart assumiu neste mês o Centro Cultural São Paulo com o desafio de planejar os rumos de um dos maiores equipamentos culturais da capital paulista na retomada do setor no pós-pandemia.

Promover o encontro de diferentes vertentes da arte, fazer do lugar uma referência em projetos inovadores e atrair a população para seus amplos espaços de concreto armado –obra dos arquitetos Eurico Prado Lopes e Luiz Telles inaugurada em 1982– são os principais objetivos do sambista, líder do Art Popular, um dos grupos de pagode mais conhecidos do país.

Lehart foi nomeado diretor do centro cultural após a saída, em abril, da jornalista Erika Palomino da função, que ocupava desde fevereiro de 2019. Ela passou a comandar a comunicação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Ligado à Secretaria Municipal de Cultura, o CCSP reúne, em seus mais de 45 mil metros quadrados entre a avenida 23 de Maio e a rua Vergueiro, bibliotecas, gibiteca, discoteca, salas de cinema e de teatro, acervo de artes visuais, espaços para shows e exposições, além de jardins.

Segundo Alê Youssef, secretário de Cultura da cidade e responsável pelo convite a Lehart, o lugar é “um farol da cultura paulistana e terá papel central na retomada cultural da cidade”. Segundo ele, Palomino fez “um trabalho brilhante” ao aproximar o CCSP de sua vocação de vanguarda. “É importante para um espaço cultural dessa natureza aliar vanguarda e popularização”, diz Youssef, para quem Lehart é o nome perfeito para unir essas duas questões.

O CCSP será, no próximo ano, um dos principais pontos de celebração do centenário da Semana de 1922 no calendário da prefeitura. “Quando imaginei Leandro Lehart diretor do CCSP, pensei na imagem de uma roda de samba antropofágica na sala Adoniran Barbosa, como coração pulsante das celebrações do centenário da Semana de Arte Moderna. E um sonho modernista de Mário de Andrade realizado”, diz Youssef.

O secretário e Lehart se conheceram em 2008, conta o músico, por meio de um amigo em comum numa festa que o sambista deu em sua casa. Hermano Vianna, antropólogo e colunista deste jornal, levou Youssef ao evento.

Lehart, que tem 49 anos e é músico desde a adolescência, diz que se sentiu envaidecido e assustado ao receber o convite para dirigir o espaço cultural, e que aceitou pela relação afetiva que tem com o lugar. “No fim dos anos 1980, tinha um projeto de shows ali chamado ‘Seis e Meia’. Eu assistia aos shows e depois ia para casa. Minha relação com aquele lugar mágico tem muitos anos, e quando o Alê me convidou, pensei nessa conexão”, conta.

Foi na sala Adoniran Barbosa, o espaço que ocupa um lugar especial no edifício do CCSP, uma arena em dois pisos cercada por um vidro que a torna visível a todos os visitantes do local, que Lehart encerrou, quatro anos atrás, os shows de seu projeto “Violão É no Fundo do Quintal”, no qual interpretava, em voz e violão, sucessos do célebre grupo carioca. O Fundo de Quintal participou da apresentação com o cantor, na sala em que ele, quando jovem, os viu tocar.

“Sou um cara das massas, gosto muito de gente e de juntar pessoas de várias naturezas artísticas. Sempre fui um modernista”, diz Lehart, sobre o norte de sua gestão –ele assumiu oficialmente o cargo de diretor no último dia 10. Ele diz que pretende fazer poucas mudanças na equipe e que quer que as curadorias de áreas estejam mais conectadas, fazendo projetos conjuntos.

O CCSP tem 172 funcionários e cada área da cultura, como dança, música e literatura, tem ali um curador. Palomino, em sua gestão, pôs no comando desses departamentos pessoas de sua escolha.

Lehart diz que não conhece a jornalista, mas que deve mexer o mínimo possível no pessoal para implantar seu estilo na gestão, que, segundo ele, é o de transformar o CCSP num lugar extremamente popular, onde é possível encontrar diferentes personalidades artísticas e que seja uma referência para outras cidades em projetos inovadores.

Lehart diz que ainda está se ambientando, conhecendo a equipe e planejando modificações e adaptações para receber o público nesse momento. As salas de cinema já estão abertas, com capacidade reduzida. Ele diz que sua primeira ação foi procurar no prédio todos os espaços que estão vazios, para planejar o uso de todos os ambientes.

Mas a mudança no estilo que Lehart já sabe que fará vai ser na área da música, que, segundo ele, deve se “conectar com o que está acontecendo na rua, unir erudito e popular”. “Gosto dessas conversas entre distantes, e o CCSP sempre foi protagonista nisso, em promover o que não é conhecido, não é reconhecido, e propiciar conexões entre vertentes”, diz ele.

O espaço deve manter uma programação híbrida, com ofertas virtuais e presenciais. Segundo Lehart, é importante manter o elo do CCSP com os frequentadores por meio dos eventos online. Mas a esperança é que no começo de 2022 já seja possível realizar mais eventos presenciais.

O que já se sabe é que haverá, assim que a pandemia permitir, no próximo ano, uma roda de samba semanal. “A roda é um sonho, vai ser um ponto de encontro importante, o centro do samba no Brasil hoje é São Paulo, com seus personagens desde os mais antigos aos do novo samba”, diz.

Outros projetos que devem sair do papel envolvem a valorização da cultura da “imigração escondida”, como chama Lehart, de bolivianos, nigerianos e outros imigrantes cuja cultura não é reconhecida como parte da cidade, e um festival de filmes de países da África lusófona. A programação também será pensada de modo a acomodar os horários dos trabalhadores da região, próxima da avenida Paulista e da Sé.

Lehart diz que quer que o CCSP seja um ponto de encontro, um lugar no qual as pessoas não se sintam inibidas em estar. “Quero que as pessoas saibam que elas precisam estar ali, presentes, usando o espaço, fazendo música, arte, cultura. Quero até mesmo usar minha imagem de artista para dizer que o espaço é delas, que não se inibam.”

O músico, que não é filiado a nenhum partido, diz não ter pretensões políticas futuras. “Sou artista, e meu papel como artista é usar minha música e minha arte para dizer o que penso. Entendo que diretor do CCSP seja um cargo com simbologia. Sou o primeiro músico popular a exercer, e estou aqui de passagem. O espaço é público, para as pessoas, para a cidade.”