Depois das manifestações de Tite e do capitão Casemiro, mostrando que comissão técnica e jogadores da seleção brasileira não estão confortáveis em jogar a Copa América no Brasil, o governo federal recebeu uma mensagem tranquilizadora do então presidente da CBF, Rogério Caboclo. No que dependesse dele, a Seleção teria um novo técnico na competição: Renato Gaúcho.

Caboclo, porém, foi afastado do cargo pela Comissão de Ética da CBF neste domingo. Ele está fora da função por 30 dias.

Tite passou a ser atacado por apoiadores do governo, como se sua posição tivesse a ver com alguma simpatia política aos partidos que, hoje, fazem oposição a Bolsonaro. O governo ouviu uma resposta tranquilizadora de Caboclo no sábado, um dia antes de ser afastado: Tite será demitido, e um novo técnico, Renato Gaúcho, fará uma convocação com os principais jogadores para a Copa América. Usará como argumento, inclusive, o fato de estar chegando e precisar do torneio para montar um time a um ano e meio da Copa do Mundo.

Renato é um declarado apoiador de Bolsonaro, o que faz com que o governo fique ainda mais feliz com este possível desfecho.

No sábado, por e-mail, o diretor de Governança e Conformidade da CBF, André Megale, recomendou a Caboclo que se licenciasse do cargo por tempo determinado para “comprovar sua inocência”. Isolado no cargo, o dirigente também estava em guerra com a comissão técnica e os jogadores da seleção brasileira convocados para os jogos das eliminatórias.

Tite em Brasil x Equador — Foto: Ricardo Rímoli/EFE

Tite em Brasil x Equador — Foto: Ricardo Rímoli/EFE

Mas o que o governo tem a ver com técnico da Seleção? O Planalto é o grande fiador da realização da Copa América no Brasil. A CBF recebeu um pedido da Conmebol para socorrer a entidade depois da recusa de Colômbia e Argentina em sediar a competição, na qual ela já investiu mais de US$ 30 milhões — o país sede não recebe nada, diretamente, para organizar o torneio.

O secretário geral da CBF, Walter Feldman, entrou em contato com o governo e o mais forte ministro de Bolsonaro, o general Luis Eduardo Ramos, que pessoalmente cuidou de viabilizar tudo.

O Planalto entende que esta Copa América pode ser uma grande vitória política, de o governo mostrar que o país tem capacidade de organizar uma competição continental em questão de dias, na linha: “A Argentina desistiu, a gente foi lá, fez e foi um sucesso”.

Renato Portaluppi em vitória do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Renato Portaluppi em vitória do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

O governo considera que, se o Brasil ganhar, com Neymar levantando a taça no Maracanã, na presença do presidente da República, será mais um ponto (político) a favor de Bolsonaro.

Por isso, membros do governo foram surpreendidos quando viram o posicionamento do técnico Tite e dos jogadores, que não estão dispostos a jogar a competição — querem férias, depois da temporada desgastante na Europa. E exigiram explicações da CBF: “Como pode o governo fazer todo esse esforço para sediar a competição, e o time ser contra o torneio?”.