SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em mais um capítulo da Guerra Fria 2.0 travada entre as duas potências, o chanceler chinês, Wang Yi, alertou os EUA em uma reunião nesta quarta-feira (1º) que as tensões políticas entre os países poderiam enfraquecer esforços de cooperação na luta contra as mudanças climáticas.

Segundo comunicado divulgado pela chancelaria do país asiático, em uma reunião por videochamada Wang disse ao enviado americano para o clima, John Kerry, que os esforços conjuntos de ambos os lados para combater o aquecimento global eram um “oásis”.

“Mas em volta do oásis há um deserto, e o oásis pode ser desertificado muito em breve”, alertou. “A cooperação climática China-EUA não pode ser separada do ambiente mais amplo das relações” entre os dois países. Kerry está em viagem oficial à China.

Os americanos, em comunicado publicado no site da embaixada na China, limitaram-se a dizer que continuam comprometidos na luta contra a crise climática, “que deve ser tratada com seriedade e urgência”. Segundo o texto, Kerry instou Pequim a tomar medidas adicionais para reduzir emissões -as duas potências lideram a emissão de gases de efeito estufa no mundo.

Mais tarde, em entrevista, Kerry falou sobre a reunião. “Disse a eles que o clima não é algo ideológico ou partidário, não é uma arma estratégica”, afirmou. Segundo ele, um dos temas abordados foi o carvão -chineses têm ampliado o uso desse material e prometem começar a reduzi-lo só em 2026. “Deixamos claro que aumentar essa produção representa um desafio aos esforços globais para combater a crise climática.”

Os EUA, que tentam retomar a liderança global na agenda climática após um hiato de quatro anos sob o governo de Donald Trump -que tirou o país do Acordo de Paris-, tentam separar essas questões de outras disputas que possuem com a China, como comércio, direitos humanos e a origem da Covid-19.

Em diferentes ocasiões, Washington citou a repressão contra a minoria uigur na província de Xinjiang e contra manifestantes pró-democracia em Hong Kong, assuntos que Pequim considera questões internas.

Já o surgimento do coronavírus vez ou outra aparece no discurso do presidente Joe Biden. Ainda que o democrata não use a expressão “vírus chinês”, como seu antecessor, na última sexta (27) ele acusou o governo de Xi Jinping de omitir informações cruciais para entender a origem do vírus.

O país asiático também foi lembrado pelo presidente em pronunciamento sobre a retirada das tropas americanas do Afeganistão, na terça (31). “O mundo está mudando. Estamos engajados em uma séria competição com a China. Estamos lidando com desafios com a Rússia. A principal missão de um presidente não é proteger a América das ameaças de 2001, mas das ameaças de 2021 e de amanhã.”

Como parte desse esforço dos EUA para ser protagonista na luta contra a crise climática, Kerry está em Tianjian para se encontrar pessoalmente com Xie Zhenhua, seu par chinês, e discutir a cooperação entre os dois países nesse sentido.

Para o chanceler Wang, aliás, a disposição de Pequim para um tête-à-tête mostra sua “sinceridade” nas discussões, segundo ressaltou a emissora estatal chinesa CCTV. Prova disso seria a imposição de uma quarentena de duas semanas às autoridades que se encontraram com o americano. “Estamos dispostos a pagar esse preço, para discutir a cooperação com os EUA em questões de preocupações mútuas.”

Observadores do clima, por sua vez, esperam que o diálogo leve a promessas mais ambiciosas de ambos os lados. “O G2 [EUA e China] precisa entender que, além de seu oásis e do deserto bilateral, todo o planeta está em jogo”, disse Li Shuo, consultor do Greenpeace, à agência de notícias Reuters. “Se eles não fizerem um progresso rápido o suficiente, tudo vai se tornar um deserto em breve.”

A reunião em Tianjin será a segunda entre Kerry e Xie -a primeira ocorreu em Xangai, em abril. Não caberia ao americano, no entanto, discutir nada além da crise do clima, apesar do alerta de Wang da ligação desse tema com outras querelas diplomáticas.

Em meio às tensões, especialistas avaliam que os embates não devem influenciar a ação de Pequim na questão climática. O país asiático tem insistido que seus esforços para reduzir emissões e adotar matrizes de energias mais limpas são parte vital de sua ambiciosa agenda doméstica.