ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) – Uma mulher caminha no estacionamento de um supermercado carregando uma sacola plástica cheia, quando se vê cercada por quatro javalis adultos -o maior deles da altura de sua coxa- e quatro filhotes.

Sem alternativa, ela solta as compras, que os suínos logo agarraram e passam a devorar.

Filmada por outra frequentadora da loja de Fornello -municipalidade da zona norte da região metropolitana de Roma-, a cena foi vista centenas de milhares de vezes na internet e ajuda a entender por que a prefeita da capital, Virginia Raggi, iniciou nesta semana na Justiça uma “guerra dos javalis”.

Raggi, 43, que daqui a um mês disputa a reeleição, abriu um processo criminal contra o governo regional do Lácio, a quem acusa de propiciar “a presença maciça e descontrolada de javalis na capital da Itália”.

A região é governada pelo Partido Democrata (PD), seu principal adversário na eleição municipal: pesquisas recentes mostram um empate entre Raggi, do Movimento 5 Estrelas, e o candidato democrata Roberto Gualtieri, 55, em torno dos 20% das intenções de voto, o que deve levar a um segundo turno.

Segundo a prefeita, o governo do PD descumpriu o compromisso de “implementar planos de manejo eficazes para esses animais”. O assunto movimenta a região há alguns anos, com associações de fazendeiros organizando caçadas e promovendo protestos. Nos cálculos deles, há ao menos 2 milhões desses animais na Itália, e a eles são atribuídos um acidente rodoviário a cada dois dias.

Nativos da Europa, esses suínos selvagens podem pesar até 250 kg e chegar a 1,10 m de altura, com comprimento de 1,80 m -ou seja, se ficasse sobre duas pernas, ultrapassaria a maioria dos humanos.

É capaz de erguer pedras de 50 kg, correr a até 40 km/h e saltar obstáculos de 1,50 m. Sua característica mais perigosa são os dentes caninos, que chegam a 12 cm de comprimento e são usados para ataque e defesa. Como os porcos comuns, seus parentes javalis são onívoros. Na natureza, comem raízes, frutos, sementes e castanhas, além de caracóis, minhocas, insetos, ovos e pequenos mamíferos.

Na zona rural, invadem fazendas à noite para devorar plantações de milho e danificam o solo com extensas escavações. Os bandos são capazes de percorrer até 40 km numa noite. Já nas cidades, ampliam seus horários: aparecem também de manhã e comem o que encontrarem -geralmente, lixo.

A gestão de detritos é um dos maiores problemas de Roma, e a visita dos animais às vezes acaba mal -para ambas as partes. No ano passado, ativistas de direitos dos animais instaram a prefeitura a abrir uma investigação após uma família de javalis ser morta a tiros pela polícia em um parquinho perto do Vaticano.

A maior pressão, porém, vem do lado humano. Desde 2019, agricultores promovem protestos em Roma pedindo providências. Há dois meses, em frente ao Parlamento, os manifestantes carregavam faixas que igualavam a “praga do javali” à Covid e pediam a “união de cidade e campo” contra os animais.
A associação de fazendeiros Coldiretti, uma das maiores do país, chegou a pedir ajuda do Exército. Segundo pesquisa divulgada pela entidade, um em cada quatro adultos italianos (26%) já se deparou com um desses bichos na cidade ou num resort de férias, e 58% os consideram uma ameaça real à população.

Na queixa ao Ministério Público, a prefeita de Roma cita lei que atribui à região a responsabilidade de “providenciar o controle de espécies silvestres mesmo em áreas proibidas de caça”.

O governo regional, por sua vez, afirmou que avaliaria a reclamação, mas diz que a legislação foi alterada neste ano. “O controle de espécies silvestres em áreas não pertencentes à superfície agro-florestal-pastoril é da responsabilidade dos municípios territorialmente competentes”, afirmou.

Seja de quem for a responsabilidade, o problema pode ficar mais sério devido às mudanças climáticas: com invernos menos rigorosos, os javalis estão se reproduzindo mais rapidamente, segundo cientistas.
Em vez de duas ninhadas por ano, as fêmeas passaram a parir três vezes a cada dois anos, gerando de 6 a 10 filhotes no período, em vez de no máximo 6. A sobrevivência das crias também aumentou, disse à imprensa grega o professor de silvicultura da Universidade Aristóteles de Tessalônica, Christos Vlachos, em maio deste ano, quando os suínos passaram a invadir a cidade costeira grega. Os animais também foram flagrados em zonas urbanas francesas durante a pandemia.

Na capital italiana, os javalis foram acrescentados a uma lista de problemas urbanos que desafiam os candidatos a prefeito. Com 2,8 milhões de habitantes –o equivalente a Salvador–, a cidade tem deficiências principalmente em transporte, além da gestão do lixo, afirma o cientista político Jan Labitzke, professor da Universidade Justus-Liebig, de Giessen (Alemanha) e especialista em política local italiana.

Máfias locais operam nas duas áreas, e o município enfrenta fortes sindicatos que mantêm a estrutura ineficiente. No caso do lixo, faltam áreas para novos aterros, e a queima de resíduos encontra oposição.
“Democracia implica desagradar alguns”, aponta a urbanista Alessandra Capuano, para quem a administração municipal ficou aquém do desejado. Professora da Universidade Sapienza, ela tem Roma como foco de pesquisa e é ainda especialista em estilos de vida e cidades do futuro.

Segundo Capuano, a pandemia –ao reduzir drasticamente a circulação de carros na capital– mostrou a urgência de mudar o modelo de locomoção: “É preciso incentivar meios de transporte por trilhos, soluções compartilhadas, faixas para bicicletas que realmente integrem a cidade e incentivos a pedestres”.

Controlar o turismo excessivo e predatório também é urgente, afirma a especialista italiana, algo com que o cientista político alemão concorda. “Chegam ônibus lotados de gente no Coliseu, eles descem, andam, sobem de novo e vão à Capela Sistina; não entendem nada, não aproveitam nada”, critica a urbanista, que defende uma mudança urbana no centro histórico de Roma que atraia moradores em vez de afastá-los.

“Não pode ser só ‘bed and breakfast’ [hospedarias populares para turistas]. Temos belos palácios históricos nessas áreas, abandonados porque seu preço ficou alto demais para a população”, diz.

Apesar das dificuldades, a disputa pela prefeitura de Roma é acirrada, diz Labitzke: “É a cidade mais importante do país, e muitos problemas são também a chance de se projetar com soluções”.

Capuano também aponta uma extensa rede de universidades e instituições culturais que poderiam fortalecer o potencial da cidade se forem coordenadas pela administração municipal.

Existe ainda uma proposta em discussão para mudar o status da capital, transformando-a em região, o que lhe daria mais recursos orçamentários e mais competências administrativas, afirma Labitzke.
Se aprovada, resolveria pelo menos a discussão judicial sobre quem é o culpado pela invasão dos javalis –administração municipal e regional seriam uma coisa só.