SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os anos passam e o sexo continua sendo um tabu. Se o assunto for o ponto de vista do prazer feminino a situação fica ainda mais nebulosa e velada. Para a jornalista e apresentadora do SexPrivé Club (Band) Krishna Mahon, 47, no entanto, isso vem mudando, apesar de bem lentamente.

“Ainda não temos uma representação grande no universo pornô”, afirma ela ao site F5, destacando que isso é um problema, já que as mulheres não costumam aparecer como pessoas nessas produções, mas sim como um objeto para satisfazer os homens. “[Os filmes] deseducavam muito as pessoas”, resume.

Mas Mahon não é pessimista. Ela, que já foi executiva em emissoras como History Channel e Lifetime, hoje usa seu programa, nas madrugadas de sábado, para reforçar a importância de a mulher ser dona do seu corpo e desejo. “É melhor falar do que eu gosto do que não falar nada, ser calada e ficar insatisfeita.

Mahon até já aponta um crescimento nas produções dirigidas e criadas por mulheres, que destacam o prazer feminino e desconstroem as expectativas irreais que muitos filmes criam. Ela também defende a importância de espaços que falem sobre sexo de forma aberta, em especial para tirar dúvidas e receios.”
À frente do SexPrivé Clube há quase um ano, Mahon tenta fazer sua parte e afirma que procura dar dicas e ensinar sobre as relações de forma engraçada e descontraída para ter maior recepção dos telespectadores. “A audiência tem uma receptividade maravilhosa, se divertem, aprendem e agradecem.”

Ela recorda, no entanto, alguns sustos e adaptações que precisou fazer desde o início do programa. Um dos problemas foram os nudes que começou a receber após sua estreia. “Teve um cara que mandou aquela ‘piroca’ enorme e uma reza, era um peru ungido”, brinca ela, que hoje diz entender isso como uma tentativa de alguns homens de criar conexões.

“A masculinidade tóxica é tão forte que os caras não sabiam como falar e demonstrar. Eles estão aprendendo”, disse. Hoje, a apresentadora afirma que recebe bem mais confissões e agradecimentos do que cantadas ou fotos íntimas.

As mudanças radicais, porém, não se limitam ao telespectador do programa, mas aconteceram também na vida da jornalista. “Quando eu vim para o canal, fui me desconstruindo e aprendendo coisas no meio do caminho”, afirma, “eu pude crescer como pessoa e vejo o tanto de gente que está crescendo junto comigo”.

Segundo ela, o programa consiste em “falar de coisas divertidas e descobrir coisas interessantes que eu vou usar para o meu próprio prazer”. E se for para escolher as experiências mais marcantes que o programa lhe trouxe, Mahon logo elege o quadro Rolê Gozado, onde faz um jornalismo imersivo.

“Vou e experimento coisas na pele, chego em casa falando ‘não acredito no que eu fiz hoje!’ ao invés de chegar falando ‘aconteceu aquele problema com aquela produtora'”, diz. Para ela, mostrar experiências também é importante para tirar possíveis receios, preconceitos e medos que a audiência possa ter.

“Quem acha que sabe tudo sobre isso [sexo] é a pessoa que menos sabe”, assegura Mahon, que ainda vê o sexo sendo relacionado a “uma questão de culpa” no Brasil, apesar de haver avanços. Para a jornalista, as pessoas estão aprendendo a rever seus preconceitos para criar novos conceitos. “Vejo isso como uma possibilidade de crescermos em um jeito lindo”, completa ela.

Mahon afirma que o programa é uma bênção em sua vida e carreira. “É engraçado falar de bênção e sexo”, diz em tom de brincadeira, “é muito interessante trabalhar com o desejo das pessoas e ir entendendo os desejos e estar aberto a ouvir o que as pessoas têm medo e vontade”.

“Nem acredito que sou paga para fazer isso”, completa a jornalista. Para a apresentadora, as coisas estão mudando para melhor, e o caminho para o sexo deixar de ser um tabu é com acolhimento e novas experiências. “Vejo um futuro lindo para nós.”