Um estudo feito por pesquisadores do Hospital Universitário Anna Meyer Children’s, em Florença, na Itália, descobriu que houve um aumento nos casos de puberdade precoce — quando características de amadurecimento sexual aparecem antes do previsto —, em meninas italianas durante o confinamento causado pela pandemia da covid-19. 

Para chegar ao resultado da pesquisa, foram analisados dados de dois grupos de pacientes: meninas recém-diagnosticadas com puberdade precoce e meninas que receberam o diagnóstico antes da pandemia. Os pesquisadores coletaram dados clínicos, endocrinológicos e radiológicos das pacientes, e as famílias das crianças responderam a um questionário para avaliar as diferenças no uso de dispositivos eletrônicos antes e durante a pandemia.

Com isso, descobriu-se que o número de novos diagnósticos foi significativamente maior do que a média do mesmo período dos cinco anos anteriores. Além disso, foi notada progressão mais rápida da puberdade em pacientes com diagnóstico prévio, durante as medidas de distanciamento, em comparação com anos anteriores. Os pesquisadores acreditam que esse resultado pode estar relacionado com o uso excessivo de dispositivos eletrônicos durante a pandemia, com a má alimentação e com “gatilhos psicológicos”, como ansiedade e depressão.

O estudo foi focado em pacientes do sexo feminino, mas hipoteticamente tais fatores também podem afetar o desenvolvimento puberal em meninos, diz o documento. “Nesse período incerto, os médicos devem estar cientes dos sinais de distúrbios do desenvolvimento puberal e devem monitorar cuidadosamente seus pacientes quanto a sinais de progressão puberal acelerada”, concluíram os pesquisadores.

O cenário brasileiro

A Puberdade precoce acontece de maneiras distintas entre meninos e meninas. “Nas meninas, acontece o desenvolvimento das mamas e/ou pelos antes dos 8 anos de idade e, nos meninos, o aumento dos testículos e desenvolvimento do genital e pelos, antes dos 9 anos de idade”, explicou Adriana Siviero Miachon, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), em entrevista à CRESCER.

Segundo ela, no Brasil, não há dados oficiais publicados sobre o avanço da puberdade precoce em meio à pandemia, mas é sim possível notar o aumento no número de casos novos de puberdade precoce no país. “Também houve progressão mais rápida das meninas que já estavam em puberdade antes da pandemia”, acrescentou a médica.

De acordo com a endocrinologista, o confinamento causado pela pandemia desencadeou três fatores que podem ter influenciado esse cenário: sedentarismo (que causa ganho de peso), alterações psicológicas (com aumento nos quadros de depressão, estresse e ansiedade) e o uso exagerado de dispositivos eletrônicos.

“Na pandemia, crianças e adultos passaram a estudar e trabalhar exclusivamente online, levando a um aumento no tempo de exposição à tela e luminosidade, o que parece diminuir um hormônio chamado melatonina, produzido na glândula pineal, estimulando o desenvolvimento hormonal precoce, especialmente nas meninas”, avaliou Adriana. As principais consequências que o amadurecimento precoce pode trazer são a baixa estatura (pelo fechamento precoce das cartilagens de crescimento) e fatores psicológicos, que podem ser causados pela falta de adequação da criança ao restante do grupo.

A médica acredita, no entanto, que a redução do número de casos e internações por covid-19 – e consequentemente a flexibilização da quarentena – ajude a normalizar a taxa de puberdade precoce. “O retorno a um estilo de vida mais saudável, com alimentação adequada, e a retomada das atividades físicas e das atividades presenciais (escola), com consequente diminuição de exposição aos aparelhos eletrônicos, pode ajudar a reverter o quadro”, finalizou.

Fonte: revista crescer