ANA LUIZA TIEGHI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A parcela de brasileiros que têm a intenção de comprar um imóvel passa por uma leve queda desde que atingiu o pico no final do ano passado, e o ambiente político e econômico está afetando essa decisão, segundo levantamento da consultoria Brain Inteligência Estratégica.

Antes da pandemia, o índice de intenção de compra era de 43%. Houve uma queda para 20% em abril de 2020, depois chegou a 46% em novembro, e agora está em 39%.

O levantamento aponta ainda que para pouco mais da metade dos 1.200 entrevistados, há fatores no país que podem atrapalhar a intenção de compra. A inflação é citada por 45% como um desses fatores, seguida pelo cenário político e econômico complicado, principalmente por causa da eleição de 2022 (31%), a taxa de desemprego (24%) o aumento de juros para financiamento (20%) e o baixo crescimento econômico (19%). A pandemia foi apontada por apenas 10% dos entrevistados.

Fabio Araújo, sócio-diretor da Brain, destaca que a importância dada ao ambiente político foi muito maior do que fatores que atingem diretamente a compra, como a alta de juros. “Mostra que ficou uma luz amarela [para o consumidor]”, afirma.

Para ele, a inflação e outros problemas econômicos podem ser suavizados nos próximos meses, enquanto o ambiente político estará presente até as eleições, só não se sabe se com mais ou menos peso na cabeça de quem quer comprar imóvel.

Araújo ressalta que a pesquisa foi feita entre os dias 30 de agosto e 11 de setembro, quando a crise política estava inflamada pelas manifestações do dia da Independência. “O Brasil nos últimos anos está sempre quente, mas esse período até a carta do Bolsonaro foi o mais conturbado”, diz.

A inflação também chama mais a atenção do consumidor do que a alta nos juros –nesta quarta (22), a Selic passou de 5,25% para 6,25% ao ano, e a expectativa é que chegue a 8,25% em dezembro.

“As pessoas não olham diretamente os juros, é mais difícil de interpretar, se a taxa passar de 7% para 9%, não parece ter tanta diferença, já a inflação é mais direta”, afirma Araújo. “A cada vez que você vai ao mercado vê tudo ficando mais caro, é natural que sobre menos dinheiro e que seu ânimo diminua”.

Perguntados se possuem imóvel para investimento, 31% dos entrevistados disseram que sim, e 16% afirmaram que gostariam de ter. Para 50%, a principal motivação é gerar renda com locação, enquanto para 42% é garantir a preservação do valor patrimonial e para 8% é valorizar o imóvel para uma revenda futura.

Araújo afirma que essa taxa de 8% é um sinal positivo. “É ótimo, mostra maturidade, um mercado de investidores não especulativos”, diz. “Quando o percentual das pessoas que querem revender passa dos 15%, é o que pode gerar algum tipo de explosão de preço, com queda no médio prazo”.

Mesmo com o aumento do trabalho e do estudo em casa na pandemia, só 9% afirmaram terem pensado seriamente em mudar de imóvel. Já a parcela de quem reformou sua casa nos últimos 12 meses foi maior, de 25%, e 27% afirmam que querem fazer reforma nos próximos 12 meses.
Mesmo com inflação e juros em alta, incorporadoras estão confiantes A Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) divulgou o indicador Abrainc-Fipe, feito com dados de 18 associadas, sobre vendas e lançamentos no primeiro semestre, que mostra recuperação na comparação com 2020.

Nos primeiros seis meses de 2021, foram vendidas 74.438 unidades, alta de 26% sobre o primeiro semestre de 2020, período que mesclou meses sem efeitos da pandemia com o momento de maiores restrições na economia.

Os lançamentos cresceram 61,7% no mesmo período, chegando a 61.199 unidades. Foi o semestre com os melhores resultados de vendas e lançamentos desde o início da série histórica do indicador, em 2014.
Para o restante do ano, a entidade projeta um crescimento de 40% nos lançamentos e de 30% nas vendas em todos os segmentos, na comparação com 2020.

O aumento da taxa básica de juros não vai afetar a atratividade do financiamento imobiliário, de acordo com o presidente da Abrainc, Luiz França, nem impactar as vendas. “As taxas de crédito imobiliário seguem em patamares baixos e o setor se mantém atrativo tanto para investimentos quanto para os interessados na aquisição da casa própria”, afirma.

O segmento popular, de imóveis que entram no programa Casa Verde e Amarela, respondeu por 75,7% dos lançamentos e 82,7% das vendas entre junho de 2020 e de 2021.

No último dia 13, o Conselho Curador do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) anunciou uma atualização no limite de preço que os imóveis podem ter para se enquadrar no programa. O aumento é de 15% para cidades que tenham entre 50 mil e 100 mil habitantes e de 10% para municípios com população entre 20 mil e 50 mil habitantes e também com mais de 100 mil pessoas.

Em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, por exemplo, o teto passou de R$ 240 mil para R$ R$ 264 mil.

Houve ainda uma redução de 0,5 ponto percentual nos juros da faixa 3 do programa, para quem tem renda de R$ 4.000 a R$ 7.000 e é cotista do FGTS, até o final de 2022.

Essa medida era muito aguardada pela indústria imobiliária, que já apontava dificuldades para manter o enquadramento dos imóveis no programa, com a inflação na construção –o INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) subiu 17,35% nos últimos 12 meses.

Como alternativa, as empresas estão buscando ampliar a produção para consumidores com rendas mais altas: o lançamento de imóveis de médio e alto padrão cresceu 113,7% entre junho de 2020 e 2021, enquanto o de habitações populares aumentou 21,1%.

“O aumento do teto, que estava sem reajuste desde 2017, vai viabilizar um grande número de projetos que não estavam mais podendo ser enquadrados no programa devido ao forte aumento nos custos”, afirma França.