BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O apoio e a promoção de pautas bolsonaristas na pandemia do novo coronavírus, como a prescrição do chamado “kit Covid” e a defesa de ações do governo federal, causou um racha entre entidades médicas.

Com isso, a AMB (Associação Médica Brasileira) decidiu lançar um novo órgão de diálogo com o Congresso. A interlocução agora será feita por meio do NAP (Núcleo de Apoio Parlamentar).
A ideia, assim, é deixar de lado o canal já estabelecido entre o IBDM (Instituto Brasil de Medicina) com a Câmara e o Senado. Isso porque a entidade é apontada como fiel a bandeiras do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e próxima do CFM (Conselho Federal de Medicina), recentemente processado pela Defensoria Pública da União por ter soltado parececer favorável à cloroquina.

A gota d’água para a AMB abrir uma dissidência teria sido a mobilização de médicos pró-governo para criticar a CPI da Covid no Senado e defender a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro -conhecida como “capitã cloroquina”-, além da médica Nise Yamaguchi e do ministro Marcelo Queiroga.

O IBDM abrigava todas as associações médicas para desenvolver ações junto aos congressistas e segue com mais de 30 afiliadas. O NAP também vai passar a realizar essa função com as associadas da AMB.

Ao menos 13 entidades já passaram a integrar o novo núcleo e deixaram o instituto.

A criação do NAP ocorreu após insatisfação de membros da AMB com representantes do IBDM, segundo dirigentes das entidades médicas que acompanharam as discussões. Segundo eles, os líderes do instituto estariam levantando pautas bolsonaristas em debates do setor.

O apoio a essas bandeiras ocorriam em grupos de WhatsApp do IBDM e até em reuniões do instituto. Entre os assuntos estaria a defesa do tratamento precoce com medicações ineficazes para Covid, como a hidroxicloroquina, e até críticas às vacinas.

A mobilização para apoiar Pinheiro incomodou parte dos médicos ligados às associações que discordam das ações da secretária do ministério.

Em depoimento à CPI da Covid, ela fez defesa ferrenha do uso da hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia contra a Covid-19, e admitiu que o ministério orientou médicos de todo o país a adotarem o tratamento precoce.

Um dia antes do depoimento, um grupo de médicos divulgou carta em defesa de Pinheiro, dizendo que ela sempre atuou em “prol da medicina de qualidade e boa formação dos profissionais médicos, além da defesa da autonomia médica”.

Antes da publicação, foi pedido no grupo do instituto que os médicos apoiassem a carta. Muitos se recusaram.

Assinado por José Luiz Mestrinho, coordenador do IBDM, entre outros médicos, a carta ainda afirma que a CPI “tem politizado questões médicas e científicas” e que a “grande mídia” criou o apelido de “capitã cloroquina” para Pinheiro.

“Não podemos deixar que alguém que defenda a classe médica, de forma técnica e científica, seja exposto dessa maneira à opinião pública”, diz o texto.

Dias depois de ela prestar o depoimento, houve uma reunião da Frente Parlamentar de Medicina com a presença de Pinheiro e Queiroga, no dia 14 de junho. Na ocasião, o presidente da frente, o deputado Hiran Gonçalves (PP-RR), prestou solidariedade ao ministro, a Pinheiro e a Yamaguchi.

“Nós estamos passando por um momento de muita turbulência na política brasileira. Infelizmente se polarizou muito e se banalizou muito o trabalho médico no enfrentamento da pandemia do nosso país. Nós temos aqui dois colegas que foram vítimas de ataques covardes, desrespeitosos por parte daquela CPI circense que está acontecendo no Senado”, disse Gonçalves.

A nova gestão da AMB tomou posse em janeiro deste ano e não apoiava a forma como o IBDM conduziu a situação. Por causa disso, chamou os associados para formar um novo instituto.

O presidente da AMB, César Eduardo Fernandes, não confirmou que a criação tenha relação com os problemas relatados. Disse apenas que a intenção é ter uma relação direta com congressistas sem nenhum viés partidário.

“Queremos uma interlocução direta, sem intermediação e sem qualquer fator de natureza política-ideológica. Nós temos de ter como causa o bom exercício da medicina e assistência ao paciente. Não importa o lado.”

Ele explicou que o NAP será administrado com recursos advindos da própria AMB e tem a intenção de abrigar as federadas. No entanto, as sociedades que fazem parte da associação não são obrigadas a sair do IBDM e ir para o NAP, isso é uma escolha de cada uma.

Alinhada ao governo, a gestão passada da AMB chegou a influenciar na escolha do médico Nelson Teich como ministro da Saúde, em abril de 2020.

O novo comando da associação, porém, faz críticas às bandeiras de Bolsonaro e às ações do CFM.

“Eu não sei por quais razões o conselho ainda não tomou uma posição clara a respeito, por exemplo, do tratamento precoce da Covid. As evidências [de que não funciona] são muito claras”, disse Fernandes à Folha, em janeiro.

Coordenador do IBDM, Mestrinho não quis se manifestar sobre as divergências entre as entidades para “evitar polêmicas e desuniões”. “O instituto continua apoiando a Frente Parlamentar de Medicina”, disse .

O CFM também não quis se manifestar.

Médicos descontentes com a criação do NAP disseram, reservadamente, que a mobilização da AMB é política e que a associação estava incomodada com o protagonismo do instituto.

Afirmam ainda que a AMB apenas renomeou a CAP (Comissão de Assuntos Políticos), órgão que já existia e era ligado à associação. Estes mesmos médicos negam que o CFM e o IBDM sejam bolsonaristas, mas reconhecem que a mobilização para defesa de Pinheiro, Yamaguchi e Queiroga causaram forte desgaste.

O NAP será lançado nesta quarta-feira (6), em evento na sede da AMB, em Brasília. O instituto e o CFM não devem participar da cerimônia.

Autoridades contrárias à dissidência disseram que a AMB terá dificuldade em assumir o protagonismo no diálogo com o Congresso. Isso porque as principais lideranças da Frente Parlamentar da Medicina teriam prometido manter o apoio ao IBDM em reunião nesta terça (5) com representantes do instituto.