JOÃO PERASSOLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Atores cavam a terra com pás, alisam toras de madeiras com lixas e usam furadeiras para pregar peças que se constituirão em camas, mesas e bancos, instalados em seguida no meio do mato, diretamente sobre a terra. Nesse cenário de mobília mínima, cercado por arredores esplendorosos de árvores, folhagens, chão batido e um riacho, uma família e seus agregados vão viver dramas cotidianos do interior da Rússia no final do século 19.

Arkádina é uma atriz famosa que tem um conflito com o filho, o aspirante a dramaturgo Tréplev, fazendo pouco caso de seus textos e debochando de suas peças –ele tenta fazer um teatro de linguagem inovadora, diferente do que consagrou sua mãe. Tréplev escreve as peças para sua amada, Nina, jovem cujo sonho é ser atriz e que tem em Arkádina seu modelo. Tudo se complica quando Nina se apaixona pelo companheiro de Arkádina, o aclamado escritor Trigórin.

História de dramas familiares misturados a reflexões sobre a arte e o papel do artista, “A Gaivota”, do dramaturgo russo Anton Tchékhov, publicada pela primeira vez em 1896, ganha agora uma nova versão, encenada e filmada pela Companhia BR116 numa fazenda de Itu, no interior de São Paulo. O resultado é um “teatrofilme” de pouco mais de uma hora de duração com estreia na próxima terça-feira (12).

“Nós estávamos nessa casa de campo, não ‘chegamos para trabalhar’, vivemos um pouco daquilo. Absorvemos muito disso e isso está na peça que fizemos”, diz a atriz Bete Coelho, que interpreta Arkádina, sobre a locação, onde os atores e a equipe filmaram por 20 dias em meados deste ano, a culminação de um longo processo iniciado antes da pandemia. “A nossa luz foi o sol, e é uma luz divina às vezes, a gente não usou nenhum refletor.”

Há motivos para montar novamente uma das peças mais encenadas da história do teatro ocidental, afirma Coelho –além de ter como um dos temas o universo da arte no qual ela e seus colegas estão inseridos, o texto fala da dificuldade de comunicação nas relações, de palavras que ficam no meio do caminho e ideias que se cruzam mas não se encontram.

“Tem esses momentos de silêncio e de pausa, o que se passa na cabeça das pessoas, que acho que muitas vezes ele [Tchékhov] dá mais importância a isso do que àquilo que está sendo dito”, ela pontua.

Esses não-ditos funcionam muito bem no cinema, diminuir as falas e comunicar mais com as imagens, acrescenta o cineasta Gabriel Fernandes, responsável pelas filmagens junto com Rodrigo Fonseca. “Você pode dar um close num ator e depois em outro ator. Óbvio que você não sabe exatamente o que se passa na cabeça deles, mas o rosto, a expressão diz muito”, afirma.

Ainda segundo Fernandes, a peça chama atenção por não ter propriamente um herói, ser uma dramaturgia sem protagonista e que pode ser encarada a partir do ponto de vista de qualquer um dos personagens. Nina, vivida por Luiza Curvo, é mais idealista e tem rompantes que dão vida ao ambiente soturno que a cerca; já Trigórin, interpretado por Flávio Rocha, soterra com racionalidade seus fortes sentimentos por ela.

“Gaivota” é o segundo “teatrofilme” da Companhia BR116, formato que o grupo desenvolveu em resposta à pandemia. O primeiro foi uma montagem da versão da dramaturga Consuelo de Castro para o mito grego da Medeia, apresentado no início deste ano. Mas, diferentemente do preto e branco carregado em que a personagem de Eurípedes foi filmada, a peça de Tchekhov traz uma fotografia em tons terrosos e sem cores muito contrastadas, como se os personagens estivessem mimetizados à terra à qual pertencem.

Embora “Gaivota” seja carregada de fatos de alta carga dramática, como amores escusos e uma tentativa de suicídio, o grupo tentou dar à encenação algum tom cômico, seguindo a linha do próprio Tchekhov, que via seu texto como uma comédia em quatro atos. Uma das técnicas para atingir tal resultado foi suavizar as emoções dos atores, mas “sem deixar de ser brasileiros”, diz Coelho.

Outro artifício foi usar a voz de Tchékhov –interpretado em off por Luiz Frias, publisher da Folha de S.Paulo– como uma espécie de narrador e guia dos personagens. Por fim, a breve presença de animais em cena, como um cachorro e um bode, remete à paixão do dramaturgo por animais e também ajuda a quebrar o gelo de um texto que tende ao dramalhão.

“A gente acabou achando justamente o cômico disso, dessa coisa cotidiana, dessas relações familiares, e de fato dá para rir disso e ao mesmo tempo ser um tema muito sério”, afirma Fernandes, o cineasta.
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GAIVOTA
Quando De 12 de outubro a 21 de novembro; quarta a domingo, às 20h; sessões extras aos sábados e domingos, às 15h
Onde No site da CiaBr116
Preço Grátis
Autor Anton Tchékhov
Elenco Bete Coelho, Luiza Curvo, Matheus Campos, Flavio Rochaa, Muriel Matalon, Diego Machado, Viviane Monteiro, Murillo Carraro, Marcos Renaux, Domingos Varela, Theo Moraes e João Carvalho
Direção Gabriel Fernandes e Bete Coelho
Link: https://www.ciabr116.com