quarta-feira, maio 22, 2024
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Moda evangélica ou moda modesta? Entenda os conceitos e onde o preconceito persiste

O interesse pela moda evangélica disparou nos últimos anos e o surgimento de novas marcas, lojas e blogueiras de moda neste segmento é a prova de que o mercado está aquecido.

 

Com opções mais modernas e alinhadas com as tendências do momento, as peças exibidas pelas influenciadoras digitais se tornam objetos de desejo entre seguidoras e consumidoras, mas não se limitam ao público cristão.

“Muita gente procura as marcas de moda evangélica mesmo que não sigam a doutrina, porque entra na categoria de quem gosta de roupas modestas, que são mais confortáveis, que te permitem transitar num escritório de advocacia, num banco”, explica a blogueira Renata Castanheira, à frente do perfil Crentechic no Instagram e Youtube, somando mais de 500 mil seguidores.

 

Renata Castanheira é dona do perfil Crentechic no Instagram e Youtube, somando mais de 500 mil seguidores. — Foto: Arquivo Pessoal

Renata Castanheira é dona do perfil Crentechic no Instagram e Youtube, somando mais de 500 mil seguidores. — Foto: Arquivo Pessoal

Viviane Pratis, professora de moda da Universidade Belas Artes (SP) e criadora do curso demoda modesta Closet Cristão, afirma que os dois estilos não são a mesma coisa:

 

“Claramente percebe-se que no Brasil há uma confusão entre moda modesta e moda evangélica.”

 

Ela explica que a moda modesta não tem ligação com a doutrina religiosa. “É um estilo de vestimenta que tem por objetivo evitar a exposição exagerada de pele e da forma corporal, é uma forma mais discreta de se vestir através do uso de modelagens mais soltas, que não moldam as formas do corpo, decotes mais fechados e mangas mais compridas”, ressalta.

 

Especialista em estilo esclarece diferença entre moda evangélica e moda modesta

Segundo Viviane Pratis, a moda modesta está mais associada a valores religiosos do que culturais ou estilo de vida: “Porém, é notável o crescimento de um público não religioso que vem adotando esse estilo para ter um resultado mais elegante e discreto na sua imagem.”

 

O interesse pela moda evangélica disparou nos últimos anos e o surgimento de novas marcas, lojas e blogueiras de moda neste segmento é a prova de que o mercado está aquecido. — Foto: Reprodução/TikTok

O interesse pela moda evangélica disparou nos últimos anos e o surgimento de novas marcas, lojas e blogueiras de moda neste segmento é a prova de que o mercado está aquecido. — Foto: Reprodução/TikTok

“Acho que a questão da sustentabilidade na moda tem influenciado o crescimento da moda modesta, porque a gente pode comparar a uma moda minimalista, que geralmente é aquela moda mais clean, com peças que cobrem um pouquinho mais o corpo, mais fluidas, às vezes até um oversized”, aponta a estrategista de imagem Jacke Molonha, responsável e mentora do curso Escola do Vestir.

Já a moda evangélica, ressalta Viviane Pratis, está relacionada com a religião: “Refere-se a uma cultura religiosa que adotou o uso de saias, vestidos e mangas mais compridas como vestimenta adequada aos seus valores cristãos, excluindo a calça desse repertório.”

 

Por ter uma característica mais discreta e próxima à moda evangélica, a vestimenta modesta acaba sendo bastante adotada por mulheres cristãs, mas não exclusivamente por pessoas que seguem a doutrina.

 

Por ter uma característica mais discreta e próxima à moda evangélica, a vestimenta modesta acaba sendo bastante adotada por mulheres cristãs — Foto: Reprodução/TikTok

Por ter uma característica mais discreta e próxima à moda evangélica, a vestimenta modesta acaba sendo bastante adotada por mulheres cristãs — Foto: Reprodução/TikTok

“A moda modesta pode caminhar entre a religião, o estilo de vida e a cultura da pessoa, mas, além disso, faz parte da forma dela se expressar, de como ela gosta de se ver e ser percebida. Então, faz parte de uma pessoa que tem uma essência mais minimalista e, a partir dessa essência, ela se veste de acordo com as suas crenças”, sugere Jacke Molonha.

 

Um estudo feito pelo Instituto Ipsos e divulgado em maio de 2023, realizado em 26 países, apontou que o Brasil ainda é majoritariamente católico (38%), mas os evangélicos, que tiveram um aumento expressivo nos últimos anos, são cerca de 29% da população.

 

“O mercado da moda evangélica cresceu muito, e não só o mercado de consumo, como os convertidos também. Talvez nem todas as pessoas sigam uma doutrina mais rígida das igrejas mais tradicionais, porém a moda também mudou muito”, reforça a influenciadora digital do perfil Crentechic.

 

Renata Castanheira é dona do perfil Crentechic no Instagram e Youtube, somando mais de 500 mil seguidores. — Foto: Arquivo Pessoal

Renata Castanheira é dona do perfil Crentechic no Instagram e Youtube, somando mais de 500 mil seguidores. — Foto: Arquivo Pessoal

Como representante de várias marcas, ela acrescenta que as lojas desse segmento não se restringem aos fiéis. “Na moda evangélica encontramos roupas dentro do que a gente acredita, da modéstia. É saia com um comprimento abaixo do joelho, não tem decote, nem transparência ou uma roupa tão envelopada, sensual. Não é que seja só para evangélico, mas é onde você tem certeza de que vai encontrar os modelos que você deseja usar.”

 

Para se ter uma ideia do interesse desse público por inspirações de moda nas redes sociais, as hashtags sinalizam a força dos conteúdos em cada plataforma: entre os termos mais comuns estão Moda Evangélica, Moda Modesta, Moda Cristã, Moda Gospel e Look do Culto.

 

No Instagram:

  • #ModaEvangelica: 7.565.000 publicações
  • #ModaCrista: 2.101.600 publicações
  • #ModaGospel: 1.844.300 publicações
  • #ModaModesta: 1.688.000 publicações
  • #LookdoCulto: 1.054.600 publicações

 

No TikTok:

  • #ModaEvangelica: 453,4M visualizações
  • #ModaModesta: 238,8M visualizações
  • #ModaCrista: 186,2M visualizações
  • #LookdoCulto: 86,8M visualizações
  • #ModaGospel: 46,3M visualizações

 

Entre os termos mais comuns buscados nas redes sociais estão Moda Evangélica, Moda Modesta, Moda Cristã, Moda Gospel e Look do Culto — Foto: Reprodução/TikTok

Entre os termos mais comuns buscados nas redes sociais estão Moda Evangélica, Moda Modesta, Moda Cristã, Moda Gospel e Look do Culto — Foto: Reprodução/TikTok

Moda modesta e preconceito: menos exposição do corpo não é submissão

Dentro o universo de moda modesta, Viviane Pratis lista os elementos e modelagens que são usados pelo público adepto desse estilo: “São calças mais soltas que não marcam as formas corporais, mangas mais largas e mais compridas, decotes mais fechados, saias e vestidos abaixo do joelho de modelagem mais ampla, podendo ser ajustada, porém não colada ao corpo.”

Jacke Molonha cita o vestido e saia cropped, quando o comprimento acaba no tornozelo, além do blazer e jaqueta jeans: “Jogadas como terceira peça, em cima do vestido, da calça com uma camiseta. Uma jaqueta mais alongada, que cobre um pouco o corpo.”

 

Mas engana-se quem pensa que a moda modesta significa looks monótonos e sem personalidade. Com o passar do tempo, é possível perceber a desconstrução da associação desse estilo às questões culturais e religiosas, assim como a modernização do estilo.

 

Muitas mulheres passam a buscar roupas mais confortáveis e que se sintam elegantes pensando no seu próprio bem-estar. E a pandemia fortaleceu essa corrente de moda comfy.

 

Muitas mulheres passam a buscar roupas mais confortáveis e que se sintam elegantes pensando no seu próprio bem-estar. E a pandemia fortaleceu essa corrente de moda comfy. — Foto: Reprodução/TikTok

Muitas mulheres passam a buscar roupas mais confortáveis e que se sintam elegantes pensando no seu próprio bem-estar. E a pandemia fortaleceu essa corrente de moda comfy. — Foto: Reprodução/TikTok

“Apesar de as modelagens e estilos modestos terem evoluindo e acompanharem as tendências de moda, ainda existe um certo preconceito em relação às mulheres que optam por esse estilo, pois cada vez tem-se vinculado à exposição do corpo ao empoderamento feminino”, destaca Viviane.

 

“Isso coloca essa mulher modesta em uma posição de submissão à religião ou ao fanatismo. Esquece-se, portanto, que as mulheres que optam por esse estilo modesto o fazem de coração e não por coação.”

 

A estrategista de imagem concorda e aponta que esse pensamento é muito limitado. “É muito complicado as pessoas julgarem, dizendo que a religião dessa mulher a ‘aprisiona’ e querer trazer esse contexto como se fosse ruim. Cada um tem a sua opção de escolha. Se ela quer usar uma moda que cobre todo o corpo, é um desejo dela. É tão lindo a mulher na sua forma de se expressar, e não é mostrando o corpo ou não”, opina Jacke.

 

Ela acrescenta ainda que tem a ver não apenas com a personalidade, mas como a mulher gosta de se ver e como se sente mais segura: “Faz parte da essência dela. Usar roupa muito curta ou cobrir todo o corpo é uma decisão que a mulher vai tomar a partir do momento que aquilo a potencializa. Isso só depende dela, é ela quem decide.”

Moda evangélica: ‘A saia mídi não define se uma mulher é crente’

Com a expansão do mercado e mais opções para atender as consumidoras evangélicas que querem seguir as tendências da moda, mas dentro do que acreditam, é preciso que o imaginário social se atualize e entenda que o cenário mudou.

 

Moda evangélica: ‘A saia mídi não define se uma mulher é crente’ — Foto: Reprodução/TikTok

Moda evangélica: ‘A saia mídi não define se uma mulher é crente’ — Foto: Reprodução/TikTok

“Na moda secular, a que não é evangélica, as mulheres também usam saia mídi, por exemplo, e você não sabe mais se ela é crente ou não. Não existe mais isso! Uma saia mídi não define se uma mulher é crente”, explica a blogueira Renata Castanheira, que atua no universo de moda evangélica há dez anos.

 

“A grande maioria das estilistas, e eu conheço esse mercado a fundo, são evangélicas. Não tem relação nenhuma de se fazer uma moda diferente do mercado secular. As pesquisas são na mesma fonte, as marcas usam o WGSN, que faz uma previsão de tendência importante.”

 

E quando alguma tendência da moda secular foge ao conceito do estilo cristão, basta fazer uma adaptação. A influenciadora digital dá alguns exemplos:

“A tendência do sutiã à mostra sob uma transparência, por exemplo. Na moda evangélica, vai se fazer algo que remeta à proposta, mas que não funcione. A blusa transparente terá um forro nude. Na moda cropped, vai ser um cropped mais baixo, compridinho. A tendência é a mesma, porém adaptada.”

 

Sem provocações, Renata esclarece que algumas influenciadoras que se definem como blogueiras de moda evangélica e exibem looks mais sensuais não seguem a doutrina de forma tão rígida: “A moda evangélica foi feita para pessoas que seguem uma doutrina um pouco mais tradicional, de não usar calça, decote, roupa sem manga, curta e sensual. Vamos falar que esse é o crente raiz (risos).”

 

Renata esclarece que algumas influenciadoras que se definem como blogueiras de moda evangélica e exibem looks mais sensuais não seguem a doutrina de forma tão rígida — Foto: Arquivo Pessoal

Renata esclarece que algumas influenciadoras que se definem como blogueiras de moda evangélica e exibem looks mais sensuais não seguem a doutrina de forma tão rígida — Foto: Arquivo Pessoal

Saiba como montar um closet cristão com peças versáteis e luxo silencioso

Idealizadora do curso Closet Cristão, Viviane Pratis, que mora em Londres desde 2018 e faz consultoria de estilo para a Hobbs London, compartilha algumas dicas valiosas para um closet cristão ideal.

 

“Aconselho investir em peças atemporais e modestas, evitando peças que são específicas da moda evangélica, como saias rodadas barradas, boleros e conjuntinhos bordados ultrapassados. O ideal é investir em modelagens mais simples, peças mais lisas e estampas clássicas como poá, listras, xadrez e animal print”, sugere.

 

E ela compartilha alguns itens com truques de estilo como sugestão para incorporar o luxo silencioso que está em alta: “Investir em looks monocromáticos, combinações análogas e complementares de cores trará jovialidade e modernidade. É muito importante ter uma base neutra, pois os neutros trazem esse luxo silencioso, a tal da elegância sem esforço que todo mundo deseja.”

 

No caso das mulheres cristãs que não são adeptas das joias e semijoias, Viviane sugere apostar em sapatos metalizados ou com broches e bolsas com alça de corrente: “Fará toda diferença na finalização do look.”

 

Blogueiras cristãs se destacam como referências na moda evangélica

Aos 45 anos, Renata Castanheira lembra que na infância e adolescência sentia a limitação de opções ao se vestir por falta de marcas da moda evangélica. “E quando eu comecei, um dos objetivos era exaltar esse novo momento, de que temos opção e podemos mostrar para o mundo que a gente é crente e é chique. Podemos seguir uma doutrina e ainda assim andar elegante e bem arrumada.”

 

Aos 45 anos, Renata Castanheira lembra que na infância e adolescência sentia a limitação de opções ao se vestir por falta de marcas da moda evangélica — Foto: Arquivo Pessoal

Aos 45 anos, Renata Castanheira lembra que na infância e adolescência sentia a limitação de opções ao se vestir por falta de marcas da moda evangélica — Foto: Arquivo Pessoal

De seis anos para cá, ela deixou para trás a carreira de gerente de negócios e call center para se dedicar exclusivamente ao seu negócio.

 

“Quando abri o Instagram, eu nem aparecia vestindo a roupa. As coisas foram crescendo e quando vi, já estava sendo a influencer junto à ideia de mostrar que podemos ser crentes, chiques e fazer escolhas sem apologia a compras. Não estimulo o consumo desenfreado, sou pelo consumo consciente”, frisa ela.

 

“Fico feliz de saber que inspiro outras mulheres. Eu não sou magra, uso manequim 44, e elas se veem muito em mim, se identificam. Recebo vários relatos de seguidores que dizem que estavam em depressão, que assistiram aos meus vídeos e melhoraram, de que passaram a se arrumar mais e que isso ajudou até na relação. É gratificante”, vibra Renata.

 

Outros nomes também vêm ganhando notoriedade nesse segmento. É o caso da influenciadora digital Geicy Andrade. A blogueira de moda modesta conta com mais de 25 mil seguidores no Instagram e usa a definição “Cristã, lifestyle e dicas” na sua bio. Os conteúdos de vídeos com “Get Ready With Me” (“Arrume-se Comigo”, em português) fazem sucesso.

 

A pernambucana Gabi Souza tem mais de 96 mil seguidores e aparece na bio como “Moda Modesta, beleza, lifestyle, mãe”. Fã de looks coloridos, ela dá dicas de composições com cores e também tem uma seção com “1 Peça, Vários Looks”, na qual ensina as seguidoras a descobrirem a versatilidade das roupas do armário.

Cris Felix, digital influencer com quase 250 mil seguidores, trabalha há mais de dez anos nesse universo. Se destaca com vestidos e conjuntos de saia e blusa inspiradores e com muita elegância em viagens pelo mundo.

 

Cris Felix, digital influencer com quase 250 mil seguidores, trabalha há mais de dez anos nesse universo — Foto: Instagram/Reprodução

Cris Felix, digital influencer com quase 250 mil seguidores, trabalha há mais de dez anos nesse universo — Foto: Instagram/Reprodução

Na definição da sua página, cita “Dicas, viagem, moda, fornecedores e beleza”. Em alguns posts, usa as hashtags moda cristã e moda modesta. Com 131 mil seguidores no Instagram e 44.500 no TikTok, Lia Raquel, do Piauí, mostra a sua “rotina capilar, looks e amor por Jesus”, como descreve na plataforma de vídeos curtos.

 

“Influenciando com propósito”, inclui na bio da outra rede social. Dentre os conteúdos que fazem sucesso, estão os cuidados com os seus longos cachos e o “Arrume-se Comigo” com a hashtag “look do culto”.

 

Fonte: gshow

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