sexta-feira, abril 12, 2024
Saúde

Gestantes negras estão mais sujeitas a mortes por hipertensão e diagnósticos de HIV e sífilis, diz ministério

Dados compilados pelo Ministério da Saúde apontam crescimento de diagnóstico do vírus HIV em gestantes negras (pessoas pretas e pardas) e de mortes por hipertensão em grávidas pretas.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2021, 67,7% das mulheres diagnosticadas com HIV na gestação eram negras. A pasta afirma que o índice cresceu, de forma anual, desde 2011, quando foi anotado 62,4%.

Já no caso das mortes por hipertensão em grávidas, entre 2010 e 2020, o aumento foi de 5% em mulheres pretas. Houve queda, no entanto, entre grávidas indígenas, brancas e pardas.

Os ministérios da Saúde e da Igualdade Racial lançaram nesta segunda-feira (23) duas edições do Boletim Epidemiológico da Saúde da População Negra. Os documentos concentram dados dos sistemas de vigilância da saúde, cruzando as ocorrências com a autodeclaração racial dos pacientes.

O levantamento — primeiro feito pela pasta desde 2015 dedicado inteiramente à saúde da população negra — foi divulgado durante a abertura do Seminário Nacional de Vigilância em Saúde da População Negra, em Brasília.

O levantamento também indicou que mais de 60% dos diagnósticos por sífilis gestacional ocorreram em mulheres negras.

Para a ministra da Saúde, Nísia Trindade, o boletim revela a raça como uma determinante social da saúde que influencia a incidência de doenças.

“É a persistência do racismo nesses dados”, disse.

 

Segundo ela, os dados sinalizam obstáculos no acesso ao sistema de saúde e até mesmo na qualidade do atendimento.

“Há muitas pesquisas que mostram [diferença de tratamento]. Por exemplo, passa pelo número de toques que a pessoa é examinada, o tempo de atendimento”, afirmou Nísia.

 

De acordo com o boletim, menos de 70% das mulheres negras realizaram mais de sete consultas antes do nascimento do bebê. O acesso ao pré-natal é maior entre brancas (80,9%).

Outro índice que sinaliza problemas no atendimento a gestantes negras é o de recém-nascidos abaixo do peso. Entre bebês de mães pretas e pardas, 10,1% nasceram abaixo de 2,5 kg. Dados do Ministério da Saúde apontam que crianças nascidas com menos de 2,5 kg têm maior risco de mortalidade.

HIV e tuberculose

 

O boletim apresentado pelos ministérios apontou que negros e negras são as maiores vítimas da Aids, doença causada pela infecção pelo vírus HIV.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2021, 60,5% das mortes pela doença eram de pessoas negras. Dez anos antes, em 2011, o índice era de 52,6%. Os números somam quase dois terços do total de mortes.

O documento também concluiu que, entre 2010 e 2022, mais de 60% dos diagnósticos por tuberculose foram de pessoas pretas. No período, em média, 73 mil casos foram registrados por ano.

A secretária de Vigilância em Saúde, Ethel Maciel, afirmou que a retomada do boletim deve orientar gestores para políticas públicas de combate ao racismo e promoção da saúde.

“Esse é o primeiro passo para a gente construir nossa linha de base. Algumas políticas já estão em andamento. Outras ainda estão sendo trabalhadas”, disse.

Doença falciforme

 

Na apresentação do boletim, a ministra da Saúde anunciou que a pasta vai editar portaria para tornar obrigatória, em todo país, a notificação de diagnósticos da doença falciforme — ou anemia falciforme.

Segundo ela, a decisão deverá ser publicada até o início da próxima semana. Atualmente, a notificação só é obrigatória em alguns estados.

A anemia falciforme é uma doença genética identificada, principalmente, pelo “teste do pezinho”. É uma alteração no formato dos glóbulos vermelhos, que ficam com uma forma semelhante a uma foice ou meia lua – daí o nome, “falciforme”.

Essas células lutam para navegar pelos vasos sanguíneos do corpo e ficam presas, levando a bloqueios que interrompem o fluxo de sangue. O risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral (AVC) e danos nos órgãos é maior em pessoas com doença falciforme. Crises de dores intensas também são queixas comuns entre os pacientes.

De acordo com o boletim divulgado pela pasta nesta segunda, a doença atinge em maior proporção a população negra. O ministério estima que entre 60 e 100 mil pessoas vivam com a anemia falciforme.

“A nossa notificação é pra que isso ocorra em todo o Brasil. Precisamos do registro dos casos para atuar melhor”, declarou Nísia.

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