Famílias ‘de guarda’ dormem ao lado de parentes mortos em incêndios no Chile
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Famílias ‘de guarda’ dormem ao lado de parentes mortos em incêndios no Chile

VIÑA DEL MAR, CHILE (FOLHAPRESS) – A dona de casa Gloria Salamanca, 41, dormiu em meio às cinzas e ao lado do corpo de sua mãe no sábado (3). “Ela ficou dois dias e duas noites exposta, porque ninguém a levava”, conta ela, segurando os anéis carbonizados que acaba de receber dentro de um saquinho de plástico do Serviço Médico Legal (SML).

Georgina Sarabia morreu aos 65 anos no quintal de casa, na última sexta (2), poucos minutos depois de receber o alerta tardio em seu telefone de que um grande incêndio estava chegando. Foi avisar os vizinhos e voltou para pegar seus animais de estimação, mas não chegou ao portão. Quando Gloria a encontrou horas depois, seu corpo ainda exalava fumaça.

O sofrimento das famílias que perderam parentes naquela tarde, no “furacão de fogo” que matou mais de 130 pessoas e lambeu em poucos minutos bairros inteiros na região da cidade de Viña del Mar, no litoral do Chile, tem sido prolongado por um colapso nos serviços de remoção e identificação de corpos.
São muitos os relatos sobre vítimas que ficaram nas ruas ou dentro de casas ou carros por cerca de dois dias até que fossem removidas, com parentes “de guarda” para evitar que cachorros se aproximassem.

“Sou mãe de um filho que é autista, tinha 33 anos, e faleceu na sexta em consequência desse incêndio. Ele se encontra nesse lugar, que é onde ele vivia. Nesse momento seu cadáver ainda está aqui”, contou Joana Valenzuela Salinas, em um vídeo que viralizou nas redes sociais no domingo (4).

“Eu sei que há muita demanda […] mas já foram vistos dois animais que andam carregando ossadas humanas na boca. Então lhes suplico, quem tenha influência, quem possa ajudar, por favor entendam para mim como mãe o que significa esperar isso. É indigno para ele, e doloroso para mim”, dizia.

Outra chilena contou no X que levou seu avô e uma vizinha em uma caminhonete, enrolados em cobertores, naquela sexta. “Viajei de Santiago porque sua família de Viña del Mar queria deixá-lo abandonado e morto na rua. Estou com raiva, e embora eu saiba que é um crime remover um corpo, eu não poderia deixá-lo lá”, escreveu.

Até a tarde desta quarta (7), foram contabilizados 131 mortos, nos quais foram realizadas 82 autópsias e identificadas 35 pessoas, das quais apenas 8 entregues aos familiares. Também há uma lista de 13 nomes de desaparecidos, mas é possível que eles estejam entre os ainda não identificados.

Gloria conta que sua mãe foi levada na tarde de domingo (4), quando a Polícia de Investigações do Chile (PDI) anunciou um reforço das equipes em campo com cerca de cem membros de outras regiões, assim como a chegada da brigada de cães e a colaboração de peritos de outros laboratórios de criminalística.

No dia seguinte, a dona de casa ficou nove horas em frente ao Serviço Médico Legal, na cidade vizinha de Valparaíso, esperando que colhessem seu DNA, porque não encontravam os registros. Na terça (6), diz que “teve que armar um show” para que lhe entregassem os anéis e assegurassem que era mesmo sua mãe.

A ministra da Saúde, Andrea Albagli, orientou que o transporte de pessoas falecidas tem que ser feito sempre em coordenação com o SML, as polícias e o Ministério Público. Se uma pessoa avistar um corpo, deve avisar as autoridades.

“Entendemos o quão difícil e dolorosa é essa situação para todas as pessoas da região, estamos aumentando os atendimentos de saúde mental a todos que foram afetados por essa catástrofe”, declarou ela em entrevista a meios locais.

COMO COMEÇARAM OS INCÊNDIOS

Sabe-se que as queimadas começaram ao mesmo tempo em pelo menos quatro pontos distintos da região, por isso as autoridades falam em ato intencional. Os morros da zona litorânea têm um histórico de problema de incêndios para invasão de terras, da qual se acusam tanto pessoas sem-teto quanto imobiliárias, mas ninguém foi preso até agora e o caso está em investigação.

O fogo se espalhou em poucos minutos pela onda de calor que atingiu o sul da América do Sul nos últimos dias, intensificado pelo fenômeno climático El Niño, que aquece o oceano Pacífico. Segundo especialistas, essas ondas são cada vez mais comuns no verão devido à crise climática, exacerbada pela ação humana.

O presidente Gabriel Boric percorreu algumas áreas atingidas na terça (6) e anunciou uma lista de ações para ajudar as famílias afetadas, incluindo a suspensão da cobrança de água e energia em fevereiro e março e a doação de móveis usados nos Jogos Panamericanos de 2023, como camas e mesas de jantar.

Ele divulgou também ajudas internacionais. Entre elas, a chegada de dois aviões com mantimentos do México, a disponibilização de um sistema de monitoramento de emergências pela União Europeia e a ajuda de especialistas dos Estados Unidos.

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