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Histórias de Quirá, o espetáculo que o colocou o Acre no mapa do Teatro brasileiro

Dirigido por Beto Rocha, assassinado de forma trágica em 1997, espetáculo foi apresentado para mais de 1,5 pessoas em Blumenau (SC, seguiu arrebatando público por onde passava e teve indicação para representar o Brasil em festivais teatrais na França e no México

Por Kiara Azevedo 05/11/2020 às 21:53:14

YURI MONTEZUMA, PARA O AMAZÔNIA AGORA

Para falar do teatro de Betho Rocha é necessário uma volta no tempo, mais precisamente ao final dos anos 80, em Rio Branco, no Acre, onde o teatro local se resumia a poucas produções e a espetáculos com vida curta em suas temporadas. Pouco incentivo por parte do poder público e casas de espetáculos vazias, para se ter uma ideia certa vez o elenco de Histórias de Quirá voltava de um festival com a bolsa lotada de premiações, mas, para tristeza da troupe, os artistas não tinham como se alimentar na volta para casa. Em mãos, apenas o dinheiro das passagens de retorno ao lar. Foram quatro dias sobrevivendo apenas com água e somente em Porto Velho (RO) um viajante se compadeceu com a situação do grupo e lhes ofereceu duas laranjas e um prato de farofa de ovos. Santo de casa não faz milagre.

Betho Rocha, considerado polêmico por muitos e gênio para outros, foi construindo seu nome pelo país até se tornar uma lenda para os artistas locais, inspirações para outros e incômodo para os acomodados de plantão. Se sentia inconformado com a indisciplina dos atores locais e, por diversas vezes, chegou a declarar que pararia com o fazer teatral, mas isso so se concretizou quando ele foi morto, por assassinato, com uma facada na garganta, quando dormia em seu apartamento no Conjunto Manuel Julião – um crime até hoje não suficiente explicado pela polícia local, apesar de tanto tempo. Mas isso é outra história, uma história de horror...

Através de Aabel Kanaú, um indigenista, chegou em suas mãos material sobre a lenda dos povos Kulina, suas lendas, seus mitos, a história da criação do mundo na visão deles. Betho então começa um intenso estudo e ensaios diários, com folga apenas aos domingos, coisa que o ator local não estava acostumado e muitos não resistiram o ritmo proposto pelo diretor, conta Vladimir Sena, um dos atores do espetáculo "Histórias de Quirá" à epoca.

"Betho, primeiro foi ator de vários trabalhos e se tornou diretor e o Histórias de Quirá surge de um contexto de reflexão que ele fez sobre o próprio processo de pesquisa que estava fazendo. Ele começou a pensar nesse trabalho em 1988, ainda quando morava fora, depois de dirigir "Galvez Imperador do Acre", ele passou um tempo morando fora do Estado. Retornou para o Acre no fim de 1988 e reuniu algumas pessoas e disse que tinha uma proposta de trabalho completamente diferente da qual havia trabalhado antes", revela Vladimir, sobre o início do processo artístico.

"Então no fim daquele ano ele começou um processo de pesquisa onde ele levou um material produzido pelo Abel Kanaú, o seu parceiro. O Kanaú foi muito importante nesse processo de construção do trabalho, era um material didático sobre histórias Madijás, a história dos Kulinas, história antiga. Nessas histórias antigas tinham várias, dentre elas o mito de criação dos Kulinas, tinha pequenos livros sobre mito de criação e um outro sobre os Madijás. Então esse foi o material utilizado, base inicial para nosso trabalho de pesquisa, que se propunha a fazer um trabalho dentro de um modelo mais europeu de teatro. Aí o Betho teve uma ideia em 1989 de fazer uma viagem para aldeia, para a comunidade do Igarapé do Anjo no Rio Envira. Foi a partir desse contato, da convivência com os Kulinas, que ele já conhecia por conta do Kanaú, mas dentro da comunidade com alguns atores, foi que ele observou o que estava fazendo, que estava sendo proposto nos ensaios não refletia a realidade para se falar dos Madijás. Então ele mudou toda a concepção, a gente ficou baseado todo em cima do Jerzy Grotowski, para o Teatro Pobre, a antropologia teatral foi muito importante, mas não foi a única base para nosso trabalho. Fomos influenciados também pelo trabalho do Peter Brook, o trabalho do Eugenio Barba, o trabalho do Gerald Thomas, Antonin Artaud".

Os atores viram vários filmes de diretores famosos, como por exemplo Zhang Yamou. "Vimos também "Lanternas Vermelhas", o Akira Kurosawa, então o trabalho acabou tendo essa reviravolta, essa simplicidade. O Betho potencializou os atores nesse processo e deixou o palco sem aquela extravagância de cenário, o ator podia ser o próprio cenário inclusive, foi um processo extremamente militar, disciplinado, ensaiávamos de segunda a sábado, desde que ele retornou da aldeia, folgavámos apenas no domingo. Eram três horas por dia com muito trabalho físico, com muito trabalho vocal, com muita leitura, com muitos laboratório de interpretação, isso me lembro muito bem", conta Vladmir.

Esse rigor do Betho, de propor uma nova metodologia de trabalho, profissional, dando um teor muito mais profissional a um grupo de teatro acreano, fez com que vários atores desistissem do trabalho, outros desistiram por outros compromissos. Realmente, o trabalho era disciplinado e não se podia chegar atrasado no ensaio. Havia um horário para começar e um horário para terminar, e isso fez com que houvesse uma peneira, que houvesse uma desistência das pessoas e uma seleção ainda mais rigorosa dos atores. "Nós acabamos em três atores, Valdenice Silva (Manga Rosa), o Deusmar (Mestre Moreno), eu (Vladimir Sena), e você entrou no processo Yuri Montezuma. O Deusmar acabou desistindo do processo e acabou restando no trabalho a Valdenice Silva, eu e você", revela Vladimir sobre o processo de seleção dos atores do espetáculo.

Vladimir conta o que era Histórias de Quirá, e o que o espeáculo ocasionou ao público que assistia. "Histórias de Quirá foi um espetáculo baseado em cima do mito da criação indígena, esse mito como em algumas sociedades americanas tem, reflete a criação do mundo e as coisas que nele existe por dois heróis mitológicos, basicamente na América do Sul, existem duas formas de conceber os mundos. Uma, por meio de um Deus, e a outra, por meio de heróis mitológicos, no caso dos Madijás os heróis mitológicos eram adolescentes, o mais velho ensinava ao mais novo o segredo da criação, os segredos mágicos, eles tinham os avós, eram os avós onça, detentores de poder, por isso os Madijás respeitam bastante os avós, respeitam bastante as onças. As onças tem fonte de sabedoria e é um dos principais clãs Madijá, então o espetáculo não tem uma linha sequêncial lógica ocidental, não foi essa proposta, até por que o mito ou as histórias antigas como os Kulinas chamam, não tem uma sequência ordenada como nós estamos acostumados com nossas histórias, as histórias são o que são e aparecem da forma que são contadas. Então nessas histórias aparecem a caçada, de criação, aparecem os animais, a metamorfose animal-homem, aparece cura, aparece Madisoso que é uma entidade da mata, que protagoniza o surgimento da tragédia Madijá. Foi um espetáculo marcante que de certa forma incomodava o convencional, era altamente plástico, que inclusive desprezava o uso das palavras, não eram necessário palavras, as imagens falavam muito mais forte, era como se estivessem assistindo uma sequência fotográfica em cena", acrescenta Vladimir Sena.

Outra pessoa que teve uma relação estreita com o espetáculo e uma grande amizade com o diretor foi Luiz Carlos ou Luiz Rabicó, para os amigos. Técnico em iluminação que desenvolveu luzes de quase todos os espetáculos de Rio Branco, tem respeito dos mais veteranos e também dos jovens iniciantes.

"Eu, recém-chegado no Cine Teatro Recreio, no final dos anos oitenta e início dos anos noventa. Estando lá chega aquele cara de camisa de manga de punho enrolada e camisa aberta, barbado, que me lembrava muito Caetano Veloso e Ney Matogrosso. Fiquei frente a frente com Alberto Antônio Araújo da Rocha, o Betho Rocha, logo começamos a conversar e era tudo muito novo para mim, meu primeiro contato com a arte. Disse para ele que estava fazia poucos meses no teatro e ele me disse que não teria problema, pois já havia trabalhado ali e conhecia um pouco. Eu iria acompanhar os ensaios do grupo e fechar o teatro. E assim foi! Aí ele me faz uma pergurta: Rapaz tu quer trabalhar comigo? Aqui na luz? Ele já vinha com uma linha de trabalho com elenco reduzido com poucas pessoas e ali eu encarei e aceitei o convite. Começamos a falar sobre luz nos espetáculos dele, falamos muito e fui me empolgando, foi me abrindo um mundo novo. Passamos a nos encontrar na casa dele ali do lado da Só Frango", no bairro José Augusto", disse Luiz Carlos. "Ele era um fã de Akiro Kurozawa e foi uma série de filmes, sempre falando sobre a luz e isso gerou um laço de amizade e carinho, muito respeito. Inicíamos um processo de pesquisa e estudamos muito até um ponto que a iluminação do espetáculo ficou fechada", relembra Luiz Carlos.

"Com isso, também muita fotografias dos filmes, da luz, de onde vinha a iluminação, a leveza com que a luz entrava e saía. Era um cara muito detalhista, então foi esse detalhe que foi me fazendo ver e enxergar esse lado para encontrar uma luz ideal, com isso fizemos várias montagens, acredito que foram sete montagens até chegar uma e fechar. Até falar que era a iluminação certa. Feita por nós dois, claro que ele com mais experiência do que eu. Com isso ele me passou a forma de operar a luz e eu entendendo através de tudo que havíamos conversado e os filmes que havíamos assistido. Sem contar que quem conheceu o Betho sabe que era um camarada super-inteligente e a gente ficava impressionado da maneira que falava do trabalho dele, do que ele queria, do que buscava. Um cara que estava além do seu tempo! Conhecedor não só da arte, mas também de política e em especial futebol, um eterno apaixonado pelo Botafogo, mas, enfim, eu sempre constumo dizer que Betho foi a minha escola na arte, um cara a quem devo muito e tive a oportunidade de falar em vida para ele. Tenho a iluminação do espetáculo na cabeça e se for preciso montar hoje, monto", afirma.

Hitória de Quirá, foi um sucesso de crítica por onde passou e uma delas que se faz bastante relevante foi do crítico da Folha de São Paulo à época, Ulysses Cruz, com o título "Não de dá Caviar a Fãs de Frango com Polenta", se referindo ao público de Blumenau. Ulysses fez uso de palavras duras, mais necessárias naquele momento. Ocasião em que o teatro estava completamente lotado.

"O comportamento mesquinho, preconceituoso e racista de grande parte da platéia do festival, sentido na última noite de sábado – Enquanto no palco rolavam as sutis imagens de Betho Rocha e do povo Kulina – Só vem confirmar o fato que o negócio anda muito ruim para o lado dos índios no que se refere à comunicação com os brancos. E isso é matéria que tem tudo a ver com sobrevivência", escreveu o crítico.

E continuou: "Turbeculose, gripe, verminose, sarampo, sífilis e outras doenças dizimam o pouco que resta das nações primitivas brasileira com o aval de nossa condescendência. Essas maravilhas da urbe são o nosso legado aos nativos que souberam criar sociedades libertárias, organizadas, onde metafísica, harmonia e instinto convivem em plenitude. Como compreender o indizível índio?".

Disse mais: "O grupo ADSABA, do Acre, por meio de Histórias de Quirá – Tentou, dionisiacamente falando, deitar alguma luz nos emperdenidos corações da massa bruta e burra que em bando tomou conta de grande parte das poltronas do teatro municipal. Mas cometeram o grande erro de servir caviar a quem só está acostumado a frango com polenta. A energia artística que nasce no centro da própria natureza, de uma maneira instintiva, aliada ao mundo dos sonhos míticos – onde valores intelectuais ou cultura artística não entram – produz um estado embriagador cuja função é nos aproximar das forças primitivas, daqueles que são verdadeiramente essenciais ao ato criador. Quando um artista atinge esse nirvana a obra de arte aparece. Às vezes, toscamente, timidamente, mas sempre carregada de sentido. "Histórias de Quirá", em seu deslumbrante desenrolar cênico, é um bom exemplo dessa poética".

"O diretor, seu elenco e técnicos instruídos de disciplina, sofisticadas angulações e movimento de luz que mais pareciam ser fruto de um equipamento informatizado tamanha a precisão e rigor, unidos a uma sonoplastia de efeito hipnótico utilizada com incrível acuidade e sabedoria teatral. "História de Quirá" é um acontecimento artístico, portanto mais que teatro."

O espetáculo "Histórias de Quirá" foi premiado em diversos festivais ganhando vários prêmios para o teatro acreano. Dentre eles estão os prêmios: Melhor espetáculo no X Festival Nacional de Ponta Grossa, Melhor Iluminação no X Festival Nacional de Ponta Grossa, Melhor Iluminação IV Festival de Blumenau, Ator revelação no IV Festival de Blumenau, Prêmio Cacilda Becker de Melhor Espetáculo e Iluminação no I Primeiro Festival Cidade de Vitória, Melhor iluminação no III Festival de Sorocaba, Melhor Iluminação no XII Festival de São José do Rio Preto, dentre outras prêmiações que o grupo conquistou.

No ano de 1997, Betho Rocha foi encontrado assassinado em seu apartamento no Conjunto Manoel Julião. O grupo ADSABA esteve em atividade até o início de 1998. Deixando um legado artístico inestimável para a sociedade acreana.


O espetáculo dirigido por Betho Rocha recebeu prêmios de críticas por onde passou


Atores passaram por ensaios rigorosos para chegaeem próximo á perfeição


Espetáculo conta a história dos itos dos índios Kulinas, do Acre

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