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Mazinho Serafim é um aprendiz de Tenório Cavalcante ou de Al Capone?

"A violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida, a liberdade do ser humano". João Paulo II.

Por Tião Maia, do Amazônia Agora em 12/01/2021 às 13:40:38

Obtuso e inculto, o prefeito reeleito de Sena Madureira, Mazinho Serafim, do MDB, que ora se encontra em nova rota de colisão com o governador Gladson Cameli, talvez não conheça – nem de ouvir falar – um certo Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, homem nascido em Palmeira dos Índios (Alagoas), em setembro de 1906 e falecido em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, em maio de 1987.

Foi um advogado e político brasileiro com base eleitoral no Estado do Rio de Janeiro, que se tornou conhecido como o "Homem da Capa Preta". Cavalcanti foi vereador e prefeito de Duque de Caxias, deputado estadual e deputado federal do Rio de Janeiro e chegou a inclusive a disputar o governo do Estado fluminense.

O homem da capa preta interpretado no cinema por José Wilker
Imprimia um estilo político agressivo, violento tal e qual o prefeito de Sena Madureira, sempre beirando a covardia. Naqueles tempos de República Velha, ele se permitia a andar pelas ruas, com a naturalidade de quem carrega um guarda-chuva, uma metralhadora a qual batizara de "Lourdinha", sob uma capa preta, dessas utilizadas por super-heróis fictícios, o que lhe valeu o apelido de "O Homem da Capa Preta", que, aliás, foi tema de filme interpretado pelo impagável e já falecido ator José Wilker, no papel de Tenório.

No filme o político é retratado como nascido numa infância humilde, na maior parte passada no sertão nordestino, marcado pela violência ao ver seu pai ser assassinado. Mudou-se ainda jovem, com 19 anos, para o Estado do Rio de Janeiro, fixando-se no atual município de Duque de Caxias, na época então distrito de Nova Iguaçu, no fim dos anos vinte.

Na época de sua chegada ao Rio, Duque de Caxias era apenas uma região cruzada por ruas de terra batida,. Habitado na maior parte por migrantes nordestinos, a maior parte da região era desprovida de qualquer infraestrutura ou saneamento básico, e formada por loteamentos pantanosos, como a Sena Madureira da chegada de Mazinho Serafim ao lugar

Seria naquela região, a Baixada Fluminense, que Cavalcanti garantiria seu poder político. Em 1936, através de Getúlio de Moura — então político de grande influência local — ingressou na União Progressista Fluminense e foi eleito vereador de Nova Iguaçu. Mais tarde Getúlio de Moura se tornaria seu adversário politico na região. Foi vereador até o final de 1937 pois o Estado Novo extinguiu o poder legislativo no país.

A atuação do homem lhe valera outro apelido: "O Rei da Baixada". Os adversários, já em grande número, o tacharam de "O Deputado Pistoleiro". Já era público, por esses tempos, que o deputado fazia uso de sua inseparável metralhadora. Ele construía desafetos aos montes. Cavalcanti mandava matar quem o desafiasse. Um destes fora o delegado paulista Albino Imparato, convocado às pressas, a pedido do então presidente Getúlio Vargas, em prol da elite de Caxias, para que impedisse o escalonamento do despotismo e da agressividade do homem da capa preta. Com a chegada de Albino, Cavalcanti e seus aliados foram perseguidos de forma implacável. Albino e sua família foram alvo de ameaças por parte de Cavalcanti, o delegado reagiu, a casa de Cavalcanti foi metralhada, seus familiares ameaçados e alguns de seus comparsas assassinados.

Até que, no dia 28 de agosto de 1953, o delegado Imparato foi metralhado em frente a sua residência, no Centro da cidade. A mãe do delegado foi uma das testemunhas do crime. O crime despertou a atenção nacional. As investigações comprovaram a participação direta de Cavalcanti no crime. As duas residências do homem da capa preta – a fortaleza de Caxias e o apartamento de Copacabana – foram cercadas por policiais fortemente armados. Com a intervenção de alguns nomes políticos de peso da época, o cerco fora desfeito. Intervieram Nereu Ramos, presidente da Câmara, Osvaldo Aranha, ex-ministro da Fazenda, e Afonso Arinos, então deputado e futuro senador, que foram a Caxias especialmente para defender o aliado.


Tenório Cavalcanti candidatou-se para o cargo de governador da Guanabara em 1960 pelo Partido Social Trabalhista (1946), mas perdeu as eleições para Carlos Lacerda. Candidatou-se a governador do Estado do Rio de Janeiro em 1962, perdendo para Badger da Silveira. Estes fatos, somado às pressões cada vez mais fortes das elites de Caxias, solaparam o poder de Cavalcanti, que lentamente cairia no esquecimento. Antes disso, protagonizaria um dos episódios mais tensos da história política brasileira.

Na ocasião, Cavalcanti, ainda no mandato de deputado federal, discursava na Câmara dos Deputados. No discurso, acusava o então presidente do Banco do Brasil, Clemente Mariani, de desvio de verbas. Antônio Carlos Magalhães, então deputado e baiano como Mariani, defendera o conterrâneo respondendo que "Vossa Excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que Vossa Excelência é mesmo, é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão."

Tenório Cavalcanti, então, sacou o seu revólver e berrou: "Vai morrer agora mesmo!". Alguns dos membros da Câmara Federal correram para tentar impedir o assassinato enquanto outros fugiram do plenário. Antônio Carlos Magalhães, tremendo de medo, teve uma incontinência urinária e, claro, mijou-se ali mesmo no plenário. Mesmo assim, gritava:

"Atira." Tenório, por fim, resolveu não atirar. Rindo da situação em que ACM se encontrava, recolheu o revólver, dizendo que "só matava homem".

O deputado Tenório Cavalcanti teve suas armas apreendidas e seus direitos políticos cassados pelo governo militar em 1964 com a interveniência direta de ACM.Tenório jamais recuperaria seu poder, tendo morrido de pneumonia aos 80 anos, em 1987. Fim da história do personagem e agora vamos nos encontrar no nosso, um aprendiz de Tenório Cavalcante, como é o senhor Mazinho Serafim, conforme o próprio, no seu estilo beligerante, vem se revelando desde que despontou para a política.

Como Tenório, este homem aportou no Acre, mais precisamente em Sena Madureira, vindo sabe Deus de onde. Na condição de empresário, ao montar uma cooperativa numa região miserável como a baixada Fluminense de Tenório Cavalcanti, angariou simpatia entre os desesperados locais. Acabou por se eleger deputado estadual, veja só, pelo Partido dos Trabalhados, na reeleição do governador de Jorge Viana, numa época em que o petismo local elegia até um poste quanto mais um homem cheio de posses e poses, com dinheiro obtido sabe-se Deus lá como. Na época, já naquela época, o PT começava a perder as redes do preciosismo do seu senso ético e permitia a filiação de quaisquer endinheirados que pudessem ajudar a cabalar votos para seu longevo projeto de poder. Deu no que deu, como todos assistimos.

Mas, uma vez deputado, o nosso candidato a Tenório Cavalcante tupiniquim, lá pelas tantas, já demonstrando seu estilo, agrediu a tapas ninguém menos que o secretário de articulação política do governo do Estado e também o principal morubixaba do petismo local, um certo Francisco Nepomunceno "Carioca", de triste memória na política local e que, na época dos apupos, isso rendeu ao então deputado certa popularidade porque o dito cujo, em que pese o poder, não gozava – como não goza – do prestígio social que julga encerrar em si. O que poucos, à época, perceberam é que ambos os contendores se mereciam.

Al capone na Chicago dos anos 30

O que ninguém sabia também é que a beligerância de Mazinho Serafim, num estilo capaz de superar Tenório Cavalcante e chegar a Al Capone da Chicago dos anos 30 no trato com os adversários, atacou, logo no começo de sua administração, o governador Gladson Cameli, seu companheiro de chapa. Deu-se em janeiro de 2019, quando ele disse que não mais queria conversa com o governador e com o vice Major Rocha., Exatamente um ano depois, na sede da Amac (Associação dos Municípios do Acre), no que deveria ser uma solenidade de posse dos novos prefeitos e dirigentes da entidade, ele voltou a atacar o governador, no seu estilo de gangster. Gladson, surpreso e humilde, preferiu agir como agem os que detém o poder: mandou demitir os apaniguados que o prefeito e sua esposa, a deputada Meire Serafim, haviam entronizado no governo. E a confusão deu-se maior, com o prefeito passando a vociferar nas ruas de Sena Madureira, como um bicho, contra o governador de maior prestígio popular da história deste Estado.

Os áulicos de Mazinho Serafim vieram a público com a justificativa de que isso é o jeito dele, de reivindicar melhorias para sua Sena Madureira (de quem, cara pálida?). Tenório Cavalcante também agia assim em Duque de Caxias. Al Capone, em Chicago, mesmo sendo um criminoso comum, dizia amar aquela cidade americana e chegava a discursar em nome da comunidade pedindo, veja só, medidas para conter a violência que ele mesmo promovia ou ajudava a promover. Tão distante no tempo e na história, mas tão Mazinho Serafim, sem tirar nem por.

Portanto, para dizer o mínimo, a forma como age o prefeito de Sena Madureira ao fazer política, não é o recomendável. Se ele quer os benefícios para sua (sua?) cidade, há as instâncias legais, como a própria Amac, com a apresentação de projetos. Além disso, ele tem, ainda, sua esposa, dona Meire Serafim, como deputada estadual, que tem uma tribuna na Assembleia Legislativa para reivindicar tais melhorias. Tem um Partido de peso como é o MDB, com deputados estaduais, federais e senadores que podem ajuda-lo em suas reivindicações e necessidades municipais.

Mas ele prefere a guerra. É da sua natureza beligerante.

Logo a forma intempestiva, agressiva, violenta que ele quer imprimir como sua marca política, não há mais espaço, nem aqui, em Duque de Caxias, Chicago ou em qualquer lugar do mundo. Agora mesmo o presidente da maior potência mundial, Donald Trump, que ''encarna'' os mesmos caracteres cafajestes do prefeito de Sena Madureira, tentou imprimir para si os mesmos caracteres cafajestes do prefeito de Sena Madureira, está ameaçado de um impeachment, mesmo no apagar das luzes de seu mandato, e deve entrar para história como o pior presidente dos EUA em todos os tempos.

Isso mostra que políticos não podem agir como gangster. Nada mais são que servidores públicos, representantes da população e devem ter modos, bons gestos, empatia, paciência, sabedoria, inteligência... Em Sena Madureira, ao que tudo indica, esse são sinônimos desconhecidos por um prefeito que, além de não conhecer a liturgia dos cargos públicos, se desconhece como gente, como cidadão.


Sena Madureira, uma cidade tão bela, de um povo acolhedor, trabalhador e ordeiro, mereceria e merece coisa melhor. Os tempos da política feita aos murros ou no cano das armas já passaram, senhor Mazinho Serafim! Assim, que me perdoem o trocadilho, será o seu fim!

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