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Grileiro diz à PF no AC que escrivão de polícia comprou áreas da União invadidas por ele

Dirceu Kruger procurou a PF em 2017 para denunciar ação de grileiros nas terras invadidas por ele, mas acaba confessando invasão e desmatamento da área de 5 mil hectares.

Por Kiara Azevedo 16/10/2020 às 13:21:43

Em um vídeo de 15 minutos, o grileiro Dirceu Kruger confessa à Polícia Federal do Acre ter invadido e desmatado terras da União. O depoimento foi gravado no dia 17 de novembro de 2017, quando o grileiro procurou a polícia para denunciar que um grupo de grileiros havia invadido as terras dele, em Boca do Acre, no AM.

À Rede Amazônica, a defesa de Kruger disse que a família está focada em comprovar a inocência dele.

Só que essas as mesmas terras foram invadidas por Kruger primeiro. Em um trecho do depoimento, ele afirma que um escrivão da Polícia Civil, identificado apenas pelo primeiro nome 'Cezar', comprou terras dos chamados 'queixadas' e estava abrindo estrada nas terras ocupadas ilegalmente por ele.

"Essa é uma propriedade da União que eu tô de posse dela já há uns cinco ou seis anos. Tô tendo problema com essa turma do Dezinho, Didi...começaram semana passada a entrar lá com máquina. Dezinho, Nenê, Didi, Geneci, vendendo para o escrivão de polícia, o Cezar, que tá acompanhando máquinas lá dentro também", afirma.

Kruger foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em junho deste ano pelos crimes de lavagem de dinheiro e invasão de terras públicas após a operação "Ojuara", que atuou no combate à corrupção e crimes ambientais praticados no interior do Amazonas.

Dirceu Kruger ri durante depoimento à PF — Foto: Reprodução

Dirceu Kruger ri durante depoimento à PF — Foto: Reprodução

'Vou tomar café com vocês', diz grileiro entre risos sobre multas

Ao ser questionado sobre as multas que já havia recebido, Kruger dá gargalhadas e diz que ainda vai tomar café com os agentes da Polícia Federal por causa disso.

"Já tinha sido autuado antes R$ 700 mil. Essa multa de 700 mil tem uns dois meses, as outras eu vou recorrendo, né? De repente, eu vou ter que vir tomar café aqui com vocês. Vou te falar, é tudo nesse nível 2 milhão (sic), 3, é isso", afirma aos risos.

Ele dá explicações, inclusive, de como faz pra recorrer e não ter que pagar os valores. "Para recorrer, tu mesmo pode fazer isso em casa. Tu chega em um escritório de contabilidade pede para fazer uma defesa, se tu fizer é bem melhor, mas tem muita gente que desmarca a terra e diz: "não é minha e fica lá dizendo não é, não é (sic)", enfatiza.

Grileiro rir em depoimento a PF ao falar de multas que já recebeu
Grileiro rir em depoimento a PF ao falar de multas que já recebeu

Grileiro confessa invasão e desmatamento de terras

O grileiro explica aos agentes como conseguiu se apossar das terras há seis anos em Boca do Acre, no Amazonas, e que hoje está em processo de regularização.

"Essas terras eu descobri que ela tava lá solta... sem ter dono né? Como a terra é da União, eu fui lá, abri estrada e me apossei dela. Não comprei de ninguém. Ela tava lá, eu fui olhar, ela era uma terra da União e eu fiz uma posse em cima dela e comecei a mexer nela. Fiz pasto", afirma.

No relatório da Polícia Federal enviado à Justiça, consta que o esquema criminoso envolvia um superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Acre, Carlos Gadelha, e pecuaristas de Boca do Acre.

O advogado de Gadelha, José Everaldo, disse que ele ainda está preso, mas que a defesa está aguardando uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STJ).

"A prisão dele não se justifica mais tecnicamente. Juridicamente, já extrapolaram todos os prazos, já vão passando os 120 dias, não tem porque, ele tem residência, ele estar cumprindo em liberdade, podia estar usando pulseira, qualquer uma medida diferente da prisão. Por conta disso nós estamos entendendo, se o país não tivesse falando de queimadas, ele já estaria em liberdade, é uma situação política", falou.

No relato a agentes federais em 2017, Dirceu Kruger denunciou a ação dos grileiros que atuavam em uma área pública de aproximadamente 5 mil hectares. No depoimento, ele confessou, ainda, que invadiu, desmatou e fez pasto no local. O homem relatou que os invasores estavam abrindo estradas e utilizavam documentos falsos para vender as terras.

No relatório consta que Dirceu Kruger relatou aos policiais que a área se tratava de terras devolutas da União. Kruger afirmou, também, que já havia sido multado pelo Ibama no valor de R$ 700 mil. No vídeo, ele não demonstra em nenhum momento incômodo em revelar que invadiu terras.

A preocupação do grileiro é a falta de "ética" em outro grupo ter invadido as terras, dividindo-a em lotes e comercializando-as com documentos falsos, que ele julga como suas.

"O desmatamento de lá é meu só que eles [grileiros] estão abrindo estrada lá, casas, cerca lá dentro da propriedade, mas lá o desmatamento é meu. Fizeram documento dessa propriedade, mas nunca ninguém chegou pra mim perguntando se era minha ou de quem era. Fizeram o documento em Boca do Acre. Essa terra já tem autuação do Ibama em cima dela em meu nome por um desmatamento que eu fiz", afirmou.

Quando Dirceu foi à PF, a tentativa era retirar outros grileiros da terra da União que ele já havia invadido. Carlos Francisco Augusto Gadelha, então superintendente do Ibama no Acre, estava envolvido. Interceptações telefônicas revelaram que o grileiro procurou Gadelha, em novembro de 2017, para pedir que o órgão fizesse uma operação na área invadida para retirar os chamados "queixadas".

"Eu falei até pro superintendente do Ibama: "se tu for com a tua equipe hoje tu pega maquinário lá dentro, não sei se tá mexendo dentro da fauna da reserva ou tá dentro da área, lá tem reserva e a Floresta do Iquiri", revela no depoimento.

A reportagem procurou a defesa de Gadelha, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Tentativa de regularizar terras invadidas

Kruger diz que pediu que fosse feito o GEO (Georreferenciamento, mapeamento de um imóvel rural) da área invadida por ele.

"Hoje eu tô mexendo pra regularizar elas. Eu fui falar com o cara do Incra, falei, inclusive, o rapaz fez o mapa da propriedade, eu tenho o GEO da área. Têm uns três anos que tá sendo feito esse GEO já, é difícil", afirma.

Dias depois, dois servidores do órgão - com apoio da Polícia Militar de Boca do Acre - foram até o local citado por Kruger.

PF deflagrou operação no AC, MG e AM — Foto: Divulgação/PF-AC

PF deflagrou operação no AC, MG e AM — Foto: Divulgação/PF-AC

Operação Ojuara

Na época da operação Ojuara, 15 pessoas foram presas e encaminhadas para a sede da Polícia Federal, no dia 8 de maio desse ano. A ação investigava crimes ambientais cometidos por servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Policiais Militares e fazendeiros.

Os suspeitos eram dos estados do Acre, Amazonas (AM) e Minas Gerais (MG). Os investigados somam R$ 147 milhões em multas do Ibama, referentes a 86 mil hectares da Floresta Amazônica.

A operação, denominada Ojuara, investiga crimes praticados por grandes fazendeiros e, de acordo com a PF, os suspeitos invadiam áreas de preservação para fazer o desmatamento e ameaçavam moradores. Eles seriam protegidos por policiais militares do Amazonas, e conseguiam se livrar das multas com ajuda de funcionários do Ibama, e com a ciência do ex-superintendente do órgão no Acre.

Foram presos PMs do Amazonas, servidores do Ibama no Acre, além de fazendeiros. Os demais mandados de prisão ainda estão sendo cumpridos. As áreas de mata desmatadas eram para criação de gado, segundo a PF.

Fonte: G1.com

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