Inflação pode subir ainda mais com intervenção de Bolsonaro na Petrobras

Por Francisco Fabiano em 22/02/2021 às 18:51:10

A decis√£o de Jair Bolsonaro (sem partido) de trocar o comando da Petrobras para conter a alta dos combustíveis pode ter o efeito oposto daquele desejado pelo presidente. Ao invés de resultar em queda da infla√ß√£o, a medida pode levar a uma acelera√ß√£o dos pre√ßos, devido à desvaloriza√ß√£o do real frente ao dólar, como resultado do aumento da incerteza.

A taxa de c√Ęmbio influencia o pre√ßo de todas as commodities, incluindo os alimentos. Pesa ainda sobre os custos da indústria, que acabam sendo repassados ao consumidor ou prejudicando a saúde financeira das empresas.

A piora na percep√ß√£o de risco no país também tende a travar os investimentos das companhias, levando a uma redu√ß√£o das expectativas de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano. E, com a piora do quadro inflacion√°rio, o Banco Central pode ser levado a antecipar a alta da taxa b√°sica de juros (Selic), o que afetaria também as perspectivas para o desempenho da atividade econômica em 2022.

Nesta segunda-feira (22/2), mesmo antes de todos esse efeitos terem sido contabilizados pelos analistas, a expectativa do mercado para o IPCA (Índice Nacional de Pre√ßos ao Consumidor Amplo) em 2021 subiu de 3,62%, na semana passada, para 3,82%. Com isso, o índice oficial de infla√ß√£o fecharia o ano acima do centro da meta, que é de 3,75% para este ano.

Segundo o boletim Focus do Banco Central, o mercado também elevou sua proje√ß√£o para a Selic ao fim de 2021, de 3,75% para 4%. Atualmente, a taxa b√°sica de juros est√° em 2% ao ano, menor patamar da história.

Os economistas pioraram ainda a estimativa para o crescimento do PIB neste ano, de 3,43% para 3,29%. Em 2020, eles avaliam que a economia deve ter encolhido 4,22% em decorr√™ncia da pandemia. O resultado oficial para o PIB de 2020 deve ser divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no dia 3 de mar√ßo.


Mais pobres podem sofrer mais

Na sexta-feira (19/2), Bolsonaro comunicou através das redes sociais a decis√£o de substituir o atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, pelo general Joaquim Silva e Luna, hoje presidente da usina de Itaipu.

A mudan√ßa, que ainda precisa ser aprovada pelo conselho de administra√ß√£o da estatal, gera uma enorme incerteza quanto ao futuro da política de pre√ßos da empresa.

Atualmente, a Petrobras adota uma política de paridade de pre√ßos dos combustíveis com o mercado internacional. Com isso, gasolina, diesel e g√°s de cozinha variam acompanhando as flutua√ß√Ķes do pre√ßo do petróleo e a taxa de c√Ęmbio.

"H√° um enorme ponto de interroga√ß√£o sobre o futuro da política de pre√ßos dos combustíveis. Se Bolsonaro partir para uma linha populista, o que tem uma probabilidade muito grande de acontecer, pode haver aumento da incerteza, fazendo com que o real se desvalorize mais fortemente em rela√ß√£o ao dólar, e aí o cont√°gio na infla√ß√£o é bem mais generalizado", afirma André Braz, coordenador de índices de pre√ßo no Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Funda√ß√£o Getulio Vargas).

"Se o pobre vai economizar no g√°s de botij√£o e na passagem de ônibus urbano, que é influenciada pelo pre√ßo do diesel, por outro lado, ele é penalizado pelo encarecimento de outros itens componentes da cesta b√°sica", explica o economista.

Na manh√£ desta segunda-feira, o dólar chegou a superar o patamar de R$ 5,50, após fechar em R$ 5,39 na sexta-feira anterior. J√° as a√ß√Ķes da Petrobras chegaram a cair quase 20% na bolsa de valores paulistana.

O especialista da FGV explica que a alta do dólar afeta, por exemplo, o pre√ßo das carnes, que j√° acumula alta de 23% em 12 meses até janeiro.

"A carne bovina, por exemplo, é muito demandada pela China. Quanto mais desvalorizada nossa moeda est√°, mais carne a gente vende para a √Āsia. Com isso, o produto sai cada vez mais do nosso país, o que é ruim para a infla√ß√£o, pois desabastece o mercado brasileiro", diz Braz. Com menos carne disponível, o pre√ßo dela tende a subir.

Ele explica que esse mesmo efeito deve levar a uma alta de pre√ßos da soja e do milho, que s√£o usados como ra√ß√£o na engorda de animais como suínos e aves.

"O custo de cria√ß√£o desses animais aumenta. Ent√£o, além do avan√ßo da exporta√ß√£o, pela desvaloriza√ß√£o do real, também podemos ter um aumento de custos nesses segmentos, o que pode aumentar o pre√ßo dessas carnes e também do ovo", diz o analista.

Outro exemplo de produto cujo pre√ßo pode subir é o minério de ferro, usado na constru√ß√£o civil e também na fabrica√ß√£o de bens dur√°veis como automóveis, fog√Ķes, geladeiras e m√°quinas de lavar, feitos com chapas de a√ßo. "O espalhamento da infla√ß√£o, entre itens da cesta b√°sica e bens dur√°veis é enorme", conclui o economista.


Intervenção na Petrobras não deve ser caso isolado

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, destaca que essa perspectiva de desvaloriza√ß√£o cambial e consequente aumento da infla√ß√£o é agravada pela percep√ß√£o de que a interven√ß√£o na Petrobras n√£o dever√° ser um caso isolado.

"A sinaliza√ß√£o do presidente de que ele pretende interferir em outros pre√ßos, como o da energia elétrica, remete a momentos do passado quando a presidente Dilma [Rousseff, do PT] tentou fazer o mesmo", diz Vale.

A mudan√ßa na Petrobras, que ainda precisa ser aprovada pelo conselho de administra√ß√£o da estatal, gera uma enorme incerteza quanto ao futuro da política de pre√ßos da empresa, apontam analistas¬© BBC A mudan√ßa na Petrobras, que ainda precisa ser aprovada pelo conselho de administra√ß√£o da estatal, gera uma enorme incerteza quanto ao futuro da política de pre√ßos da empresa, apontam analistas

Ele lembra que, no governo da ex-presidente, o controle de pre√ßos dos combustíveis pela Petrobras foi usado como uma forma de controlar artificialmente a infla√ß√£o, gerando prejuízos bilion√°rios para a empresa. J√° no setor elétrico, Dilma tentou baratear o custo da energia por meio de uma medida provisória (MP 579/2012) que causou enormes desequilíbrios no setor.

"Dessa vez, o grande risco é essa interfer√™ncia de pre√ßos, tanto na Petrobras, como na energia, vir de uma forma um pouco diferente do que foi no caso da Dilma. Me parece que a ideia do governo agora é utilizar recursos fiscais para tentar evitar que os pre√ßos subam", explica Vale.

"Ou seja, voc√™ piora o perfil das contas públicas, num momento que a situa√ß√£o fiscal j√° est√° comprometida depois dos gastos em resposta à pandemia no ano passado. A piora fiscal traz esse possível impacto de press√£o cambial e, consequentemente, de infla√ß√£o."

Duas indica√ß√Ķes de que o governo pretende usar recursos fiscais para interferir nos pre√ßos s√£o o anúncio de Bolsonaro de que vai baixar o PIS/Cofins sobre o diesel e o g√°s de cozinha por dois meses, o que economistas estimam que pode gerar uma perda de arrecada√ß√£o para o governo federal de ao menos R$ 3 bilh√Ķes, que precisar√° se compensada de alguma maneira.


J√° no setor elétrico, Bolsonaro estaria planejando usar R$ 20 bilh√Ķes em recursos de um fundo setorial e devolver outros R$ 50 bilh√Ķes em valores pagos a mais pelos consumidores na conta de luz, como forma de baratear pre√ßos à popula√ß√£o. As informa√ß√Ķes s√£o da Folha de S. Paulo, em reportagem publicada no domingo (21/2).

"No terceiro ano de mandato presidencial, o presidente est√° olhando muito sua reelei√ß√£o no ano que vem. Ele d√° essas 'bondades' para a popula√ß√£o, que mais à frente acabam se voltando contra as próprias pessoas, através de mais infla√ß√£o", diz Vale.


Expectativas para o PIB também dever√£o ser afetadas

O economista-chefe da MB Associados avalia que esse cen√°rio também tende a corroer as expectativas de crescimento para este e para o próximo ano.

"Todo o atraso na recupera√ß√£o da atividade provocado pelo agravamento da pandemia, mais esse cen√°rio de interven√ß√£o que come√ßa a aparecer, também afetam a expectativa de crescimento, especialmente pelo lado do investimento", afirma o analista.

"Quando voc√™ tem crises como essa, o investidor l√° fora fica com a percep√ß√£o de que o país tem um cen√°rio negativo pela frente, seja por conta da situa√ß√£o fiscal, seja por conta da perspectiva de baixo crescimento, seja por conta da incerteza generalizada na economia", diz Vale.

"Incerteza significa volatilidade muito intensa, o que é um cen√°rio complicado para o investidor lidar, ent√£o a tend√™ncia é haver saída de recursos estrangeiros do país para mercados mais est√°veis. Por conta disso, acontece a deprecia√ß√£o da taxa de c√Ęmbio."

A taxa de c√Ęmbio influencia o pre√ßo de todas as commodities, incluindo os alimentos¬© Getty Images A taxa de c√Ęmbio influencia o pre√ßo de todas as commodities, incluindo os alimentos

O economista explica que o efeito de tudo isso para a infla√ß√£o só n√£o deve ser pior porque as empresas devem ter dificuldade de repassar a alta de custos aos pre√ßos, devido à elevada taxa de desemprego e aos muitos consumidores sem uma fonte de renda em meio à pandemia.

Sem repassar pre√ßos, as empresas devem perder margens de opera√ß√£o e de lucro. Com isso, a propens√£o das companhias para investir ou contratar trabalhadores fica prejudicada, o que também afeta negativamente as perspectivas de crescimento da economia.

"Podemos ter mais recupera√ß√Ķes judiciais e fal√™ncias por conta desse cen√°rio de press√£o de custos", diz Vale. "Isso também significa que o mercado de trabalho deve ter uma recupera√ß√£o muito lenta, com a taxa de desemprego chegando acima de 15% nos próximos meses e sem perspectiva de voltar a cair com mais intensidade ao longo deste ano."


Selic pode subir antes do esperado e reformas ficam mais distantes

Diante da perspectiva de alta adicional do dólar e aumento da infla√ß√£o, o Banco Central deve ser levado a subir a taxa b√°sica de juros ainda neste primeiro semestre.

"Acredito que [a Selic] n√£o subir√° ainda em mar√ßo, mas esperamos alta em maio, quando vai haver clareza em rela√ß√£o ao n√£o andamento das reformas", avalia Vale. "Mas, se o c√Ęmbio continuar pressionado como est√° agora, talvez o BC seja chamado a subir taxa de juros antes da hora. Pode acontecer."

"Esse cen√°rio de aumento de juros antes do previsto e talvez uma taxa mais alta do que se imaginava tem o efeito de reduzir a expectativa de crescimento para o ano que vem, porque uma alta de juros que comece agora e termine no segundo semestre teria seu impacto completo em 2022."

Com o chamado "centr√£o" à frente do Congresso, num terceiro ano de mandato presidencial, Vale avalia que a perspectiva aprova√ß√£o de reformas controversas como a administrativa e a tribut√°ria é muito desfavor√°vel.

"O cen√°rio que temos no Congresso n√£o é um cen√°rio de ajuste fiscal. E o ministro Paulo Guedes est√° cada vez mais enfraquecido. Ele j√° n√£o tinha um poder de determinar a agenda e agora fica ainda mais claro que o problema n√£o era o [ex-presidente da C√Ęmara] Rodrigo Maia, mas a dificuldade de articula√ß√£o por parte do Ministério da Economia."

Para Vale, a permanência ou não de Guedes no governo agora se tornou pouco relevante.

"Ele est√° no governo, mas é como se n√£o estivesse", opina o economista. "A quest√£o que fica é: o ministro Guedes vai aguentar até quando essas inger√™ncias de um governo que j√° n√£o era liberal e fica cada vez mais parecido com momentos muito ruins do passado da economia brasileira, especialmente do governo Dilma? Até quando ele vai levar?"


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