
Os tensos minutos de silêncio para tentar ouvir sobreviventes sob os escombros na Venezuela
Getty Images
Sobre uma grande e instável montanha de concreto, ferro e poeira, cerca de dez pessoas retiram blocos, pedras e vigas, na esperança de encontrar sobreviventes ou corpos na Venezuela.
De repente, tudo para. Há gritos, correria, abraços. Um socorrista acredita ouvir uma voz sob os escombros. Esperançoso, pensa que é um sobrevivente pedindo ajuda.
“Meu Deus, obrigada”, exclama uma mulher de cerca de 60 anos. “É verdade?”, pergunta outra, incrédula, cobrindo a boca.
A notícia se espalha rapidamente pelos arredores das Residências Mariola e Maribel, em frente a El Yate, uma praia em La Guaira que costumava ficar cheia de gente aproveitando um dia ensolarado até que o terremoto de quarta-feira na Venezuela destruiu quase tudo.
Apenas uma das duas torres do conjunto permanece de pé: dos seis andares, restam apenas quatro e meio, inclinados, com a sensação de que podem desabar a qualquer momento.
A outra torre parece ter sido engolida pela terra.
Em questão de segundos, a esperança se espalha.
Ronnie Navarro percorreu 350 quilômetros desde Puerto La Cruz, no oeste da Venezuela, até La Guaira para ajudar a retirar o tio dos escombros
BBC Mundo
Vários socorristas correm em direção à avenida e fazem sinais desesperados para que desliguem os motores, parem os guindastes e silenciem as furadeiras. O barulho, mais um inimigo neste momento em La Guaira, vai diminuindo aos poucos.
Os socorristas escalam os escombros, se ajoelham, inclinam a cabeça. Tentam escutar.
“Por favor, deixem-nos ouvir. Não façam barulho! Parece que há alguém aqui”, pede um deles do alto.
“Shhhh… silêncio, por favor”, a mensagem se repete em cadeia.
O silêncio abriga a esperança de encontrar um sobrevivente. Só no sábado, 33 pessoas ainda com vida foram resgatadas após um terremoto que oficialmente já deixou 1.719 mortos, segundo novo balanço divulgado por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, nesta segunda-feira (29/6).
A cada minuto, as esperanças diminuem.
As dezenas de pessoas presentes no local se calam. Ao fundo, ouve-se o barulho de outras áreas de resgate. Dá até vontade de prender a respiração.
“Diga alguma coisa para podermos ouvi-lo, por favor. Somos uma equipe de socorristas!”, gritam para um destinatário desconhecido, escondido sob quilos ou toneladas de concreto.
Essas palavras rompem um silêncio que se tornou quase sagrado, sepulcral, nas Residências Mariola e Maribel.
Vizinhos, amigos e familiares dos moradores do conjunto residencial se transformaram nos socorristas
BBC Mundo
O silêncio só é interrompido por alguns sussurros e pelo rangido das pedras sob os pés de quem tenta se aproximar sem fazer barulho.
“Que ninguém se mexa!”, grita uma voz com um tom de exasperação. “Deixem a gente ouvir, por favor!”
Durante dez minutos, o tempo parece suspenso. Ninguém fala. Ninguém respira.
Os vizinhos alertaram equipes profissionais que estavam nas proximidades. Elas chegam em questão de minutos. Mas vão embora quase com a mesma rapidez.
Não há resposta ao chamado. Nenhum som vem dos escombros.
Os profissionais declaram que foi um alarme falso. E as expressões mudam drasticamente.
Mesmo assim, Ronnie Navarro não está disposto a desistir. Chegou no sábado vindo de Puerto La Cruz, uma cidade a cerca de 350 quilômetros de La Guaira, para ajudar a retirar o tio dos escombros.
Visivelmente exausto, Ronnie olha para os companheiros, que continuam retirando escombros.
“O [socorrista] que ouviu diz que havia alguém vivo. Eles estão quebrando a parede para ver se conseguem tirá-lo”, diz Ronnie à BBC News Mundo, sem saber da declaração oficial de alarme falso.
Escombros sobre o conjunto residencial Caribe, na paróquia de Caraballeda, estado de La Guaira
BBC Mundo
“Há corpos ali, esmagados. Os familiares de quem morava ali estamos colaborando porque o governo não quer ajudar”, reclama.
“As autoridades não dizem nada. Passam, dão uma olhadinha e vão embora. Como não têm parentes ali…”
Sobre o tio, ainda não há notícias: “Ainda não o retiraram”, diz, com a voz embargada.
A emoção que muitos sentiram há poucos minutos rapidamente dá lugar à frustração. E a frustração, tanto aqui quanto no restante de La Guaira, começa a se transformar em revolta.
Zuly Marín, uma bioanalista de 66 anos, morava havia mais de uma década nas Residências Mariola e Maribel. Quando ocorreram os terremotos, ela havia saído para fazer compras e, em vez de voltar para casa, decidiu visitar o pai. Essa decisão salvou sua vida.
“Perdi minha sobrinha e meu cunhado”, diz à BBC News Mundo. “Houve demora no processo de resgate. Acho que, se [as autoridades] tivessem chegado antes, muitas pessoas teriam sido salvas.”
Zuly Marín, uma bioanalista de 66 anos, já perdeu a esperança de encontrar a sobrinha e o cunhado com vida
BBC Mundo
A poucos metros dali, Belkys Valecillo observa com temor o maquinário pesado que trabalha na avenida principal e em outros edifícios vizinhos.
“Meu irmão, meu sobrinho e minha cunhada estão no primeiro andar daquela torre, soterrados”, diz à BBC News Mundo.
“Um especialista de El Salvador nos disse que não consegue entender como há maquinário pesado funcionando agora, quando, pelo protocolo, deveriam esperar oito, nove ou dez dias, quando já não deveria haver pessoas vivas. Mal se passaram quatro dias.”
Belkys diz que, no prédio de seu irmão, no conjunto residencial Caribe — que desabou completamente e fica bem ao lado das Residências Mariola e Maribel —, há três famílias abrindo buracos para retirar seus entes queridos.
“Já retiraram vários mortos e há mais”, conta.
O silêncio, em meio ao caos, é fundamental para detectar sinais de vida
BBC Mundo
Ao cair da noite, a energia volta por alguns instantes. Sobre a pilha de escombros onde antes ficava o conjunto residencial Caribe, algumas pessoas começam a se mover com rapidez e desespero. Outras correm pela rua pedindo silêncio. Um grupo de enfermeiros se aproxima do local. Todos querem ajudar.
Um jovem diz que ouviu alguém dentro dos escombros. A esperança de que alguém ainda possa estar vivo ressurge.
“Água, água! Tragam água para os socorristas!”, grita alguém no meio da multidão, enquanto cerca de dez homens trabalham rapidamente.
A cena vivida nas Residências Mariola e Maribel se repete. E os profissionais declaram outro alarme falso.
Meia hora depois, entre os escombros, nas profundezas, alguém consegue ver alguma coisa.
São dois corpos imóveis.
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