A força da periferia

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Em época de pesquisa eleitoral, números são divulgados como se traduzissem, com exatidão, o sentimento das ruas. Mas é preciso fazer uma pergunta incômoda: quais ruas estão sendo ouvidas? As avenidas asfaltadas do centro ou os becos esburacados da periferia?

Em Rio Branco, capital do Acre, a desigualdade urbana é visível a olho nu. Nos bairros centrais e nas áreas mais valorizadas da cidade, o asfalto é recapado com frequência, a limpeza pública segue um cronograma regular e os bueiros recebem manutenção periódica. A iluminação funciona, as calçadas são transitáveis e o poder público se faz presente.

Já na periferia, a realidade é outra — e antiga.

Moradores relatam que há mais de dez anos suas ruas não recebem sequer uma operação tapa-buraco. Em alguns trechos, o asfalto desapareceu completamente, dando lugar à lama no inverno amazônico e à poeira sufocante no verão. Falar em saneamento básico parece ironia. Há comunidades inteiras convivendo com esgoto a céu aberto, valas improvisadas e ausência de drenagem adequada.

As calçadas, quando existem, são intrafegáveis. Idosos, crianças e pessoas com deficiência enfrentam obstáculos diários para simplesmente sair de casa. Em muitos bairros, os próprios moradores colocam restos de concreto, entulho e pedaços de madeira para tentar viabilizar a entrada e saída de veículos e pedestres. É a população assumindo, com recursos próprios, o papel que deveria ser do poder público.

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Essa disparidade não é apenas estrutural — é política.

Quando o poder público investe sistematicamente mais em áreas centrais e deixa a periferia à própria sorte, cria-se uma cidade partida. Uma parte que aparece nas fotos oficiais e outra que só é lembrada em época de campanha.

As pesquisas eleitorais, embora importantes, nem sempre capturam essa frustração acumulada. O questionário pode apontar aprovação ou rejeição, mas dificilmente mede o sentimento de abandono de quem convive há uma década com buracos na porta de casa. O morador da periferia sente na pele o descaso — e isso não cabe em porcentagens frias.

O voto da periferia também vale. Vale tanto quanto o voto do centro, do bairro nobre, do condomínio fechado. Vale porque é o voto de quem paga impostos, trabalha, sustenta a economia local e contribui para o crescimento da cidade.

Ignorar essa realidade é um erro político. Subestimar o sentimento das comunidades mais afastadas é um risco eleitoral. A história recente mostra que, quando a periferia decide falar nas urnas, o resultado pode surpreender.

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Mais do que asfalto novo na área central, a cidade precisa de justiça urbana. Mais do que discursos, precisa de presença efetiva do poder público onde a necessidade é maior.

Porque democracia não se mede apenas por pesquisas. Mede-se pelo respeito a todos os cidadãos — inclusive aqueles que moram onde o asfalto nunca chega.

Fabiano Azevedo – Jornalista e Web Designer

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