Água quente do fundo do oceano avança em direção à Antártida e ameaça geleiras, diz estudo

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Uma massa de água quente que circula nas profundezas do oceano avançou em direção à Antártida nas últimas duas décadas e hoje representa uma ameaça direta às plataformas de gelo que protegem o continente.

A conclusão é de um estudo publicado nesta segunda-feira (28) na revista científica “Communications Earth & Environment”, do prestigiado grupo Nature, conduzido pela Universidade de Cambridge em colaboração com pesquisadores da Universidade da Califórnia.

O fenômeno em questão envolve o que os cientistas chamam de “água circumpolar profunda” — uma corrente quente que sempre existiu nas camadas mais baixas do Oceano Austral, o oceano que circunda a Antártida, mas que historicamente ficava contida longe do continente por uma barreira de água fria e densa.

🌊 Os dados mostram que essa barreira está recuando, e a água quente avançando para tomar o lugar deixado por ela.

 

“O Oceano Austral é uma das principais regiões em que as águas profundas voltam a se conectar com a atmosfera. Por isso, as mudanças ali não afetam apenas a Antártida: elas podem alterar a forma como o oceano absorve, armazena ou libera calor e carbono”, disse ao g1 Joshua Lanham, pesquisador de Cambridge e autor principal do estudo.

“Isso pode influenciar as temperaturas dos oceanos em escala global e, potencialmente, grandes padrões de circulação oceânica que ajudam a redistribuir calor pelo planeta”, acrescentou.

As plataformas de gelo da Antártida são estruturas que se projetam sobre o mar a partir do continente e funcionam como barreiras naturais: elas travam o movimento das geleiras e das calotes de gelo do interior da Antártida em direção ao oceano.

Sem elas, o gelo terrestre deslizaria mais rapidamente para o mar.

Segundo estimativas, a quantidade de água doce retida nas geleiras e calotes de gelo antárticas é suficiente para elevar o nível do mar global em cerca de 58 metros, se totalmente derretida.

Desse modo, mesmo uma fração desse volume teria consequências severas para cidades costeiras ao redor do mundo, como as do Brasil.

A perda de gelo na Antártida contribui para a elevação do nível do mar em escala global. E esse aumento afeta áreas costeiras em todo o mundo. Nosso estudo não apresenta projeções sobre o nível do mar, mas o ponto central é que o que acontece ao redor da Antártida não tem consequências distantes ou isoladas.
— Josh Lanham, pesquisador do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Cambridge e autor do estudo.

E o que torna o novo estudo especialmente significativo é que ele resolve uma lacuna histórica.

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➡️ Modelos climáticos já previam essa migração da água quente como consequência do aquecimento global — mas até agora NÃO havia evidências observacionais concretas de que isso estava de fato ocorrendo.

“Era algo que havia sido previsto pelos modelos climáticos por causa do aquecimento global, mas ainda não tínhamos visto nos dados”, disse Lanham.

Implicações vão além do gelo

Para chegar à essa nova conclusão, os pesquisadores combinaram dois tipos de dados oceanográficos.

O primeiro são as medições feitas por navios científicos ao longo de décadas, parte de um programa internacional de longa data que registra temperatura, salinidade e nutrientes em diferentes profundezas do oceano — mas com coletas espaçadas por anos, sem continuidade.

O segundo tipo vem das chamadas boias Argo, um sistema global de dispositivos autônomos que derivam pelo oceano e enviam dados de forma contínua, mas que existe há menos tempo do que os registros feitos por navios.

Dessa forma, usando aprendizado de máquina, a equipe combinou os dois conjuntos de informações para construir um registro mensal detalhado que abrange as últimos quatro décadas.

Foi esse histórico reconstituído que permitiu identificar, pela primeira vez, a tendência de avanço da água quente ao longo do tempo.

“No passado, as camadas de gelo eram protegidas por um banho de água fria, que impedia o derretimento. Agora parece que a circulação do oceano mudou, e é quase como se alguém tivesse aberto a torneira quente — o banho está ficando mais quente”, disse Sarah Purkey, professora de Oceanografia Física no Instituto Scripps de Oceanografia, da Universidade da Califórnia em San Diego e autora do estudo.

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Segundo os pesquisadores, a explicação para essa mudança passa pelo próprio aquecimento global.

Mais de 90% do calor acumulado em excesso pelo planeta por causa das emissões de gases de efeito estufa é absorvido pelos oceanos, e o Oceano Austral é o principal receptor desse calor.

À medida que as temperaturas do ar sobem e o degelo adiciona água doce ao mar, a formação da camada de água fria e densa que protegia a Antártida enfraquece.

A água quente profunda, então, preenche o espaço que a fria deixa para trás.

Boias robóticas usadas para monitorar os oceanos ajudam cientistas a acompanhar mudanças na temperatura e na circulação da água em tempo real. — Foto: Scripps Institution of Oceanography/UC San Diego

Justamente por isso, Ali Mashayek, professor de Cambridge e também autor do estudo, alerta que as consequências do achado não se limitam ao derretimento do gelo antártico.

“O Oceano Austral desempenha um papel fundamental na regulação do calor global e do armazenamento de carbono, então mudanças na distribuição do calor aqui têm implicações mais amplas para o sistema climático global”, afirmou.

Isso ocorre porque nas águas polares forma-se água fria, densa e rica em carbono, que afunda e alimenta as grandes correntes de circulação oceânica global — entre elas a Circulação de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), que distribui calor pelo Atlântico e influencia o clima de continentes inteiros.

Qualquer perturbação nesse mecanismo de afundamento repercute no funcionamento de todo o sistema.

Para Lanham, o dado mais urgente do estudo não é uma projeção, é um registro do presente.

“Agora podemos ver que isso já está emergindo nas observações. Não é apenas uma possibilidade futura sugerida pelos modelos; é algo que está acontecendo agora, com implicações amplas para a forma como carbono, nutrientes e calor circulam pelo oceano global”, disse ele.

 

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