sexta-feira, maio 24, 2024
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Dor durante a relação sexual: saiba quais são 13 motivos possíveis e como chegar ao diagnóstico

A dor durante a relação sexual não pode ser normalizada. É o que afirmam especialistas sobre um problema que acomete cerca de 39,5% das mulheres brasileiras entre 40 e 65 anos, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. “A dor é um sinal de que tem alguma coisa de diferente acontecendo”, alerta o ginecologista e obstetra Carlos Moraes, membro da Febrasgo.

 

Para Bárbara Bastos, sexóloga clínica e educacional pela FASEX, essa queixa de mulheres costuma acontecer com frequência. “Infelizmente muitas acreditam que é natural por terem sentido dor desde sempre, pela falta de educação sexual e tabus para falar de sexo”, aponta.

 

“A dispareunia, dor no ato sexual, é um indicativo de que o corpo dessa mulher precisa ser investigado para se descobrir o que está acontecendo”, explica a fisioterapeuta pélvica Helaine Souza, reforçando que muitas mulheres, por acharem normal ou se sentirem envergonhadas, evitam levar este problema a um profissional: “E isso pode gerar um agravamento do problema ou dificuldades na resolução.”

Problemas mais comuns entre as mulheres que sentem dor na relação sexual

A dispareunia pode acontecer durante ou após o ato sexual, podendo estar relacionada com penetração e/ou profundidade, segundo a fisioterapeuta pélvica. Ela destaca as patologias mais comuns:

 

  • Vaginismo: “Hipertonia da musculatura do assoalho pélvico, aumento do tônus e diminuição da capacidade de estiramento dessa musculatura, impossibilitando a penetração.”
  • Vulvodínia: “Dor crônica, geralmente em queimação, na região da vulva, a parte mais externa da vagina, sem nenhum achado físico.”
  • Atrofia Vaginal: “Redução do canal vaginal, por afilamento das paredes, geralmente relacionada à diminuição do estrogênio, hormônio feminino.”

 

Quais fatores podem causar dor durante o sexo?

Existem vários motivos que podem desencadear dor nas mulheres durante a relação sexual. Os profissionais destacam alguns casos:

 

  1. Infecções Sexualmente Transmissíveis
  2. Alterações hormonais (menopausa)
  3. Problemas intestinais
  4. Questões psicológicas e emocionais
  5. Cirurgias e partos
  6. Aderências e fibroses
  7. Lesões na mucosa
  8. Cistite (infecção urinária)
  9. Infecção nos órgãos genitais
  10. Dismenorreia (cólica menstrual)
  11. Cisto ovariano
  12. Endometriose
  13. Mioma

O DIU causa dor na mulher durante a relação sexual?

Uma dúvida muito comum é se o DIU pode causar dor ou incômodo na mulher. Segundo o Dr. Carlos Moraes, esta não costuma ser uma causa de dor pélvica. “Quando a paciente está com DIU bem inserido e não tem nenhum problema de infecção, normalmente é um método contraceptivo que a deixa assintomática, ela não tem queixa nenhuma”, garante.

 

O especialista destaca que pode haver um “pequeno desconforto” apenas nas primeiras 48 horas após a inserção do dispositivo intrauterino. “Se a paciente usa DIU e começa a desenvolver um quadro doloroso, é mais um motivo para procurar o médico para rastrear e identificar algum tipo de problema. Em condições normais, os usuários de DIU não sentem dor pélvica.”

Como é possível descobrir as causas da dor?

A consulta com um ginecologista é essencial, já que é o profissional mais acostumado com esse tipo de patologia. “Um clínico geral, até por conta da familiaridade, às vezes não consegue investigar de maneira tão completa. Então a consulta com ginecologista é a melhor opção”, explica Carlos Moraes.

 

Ele acrescenta, entretanto, que nem sempre é possível identificar o problema só pelo relato da paciente no primeiro momento: “Normalmente é preciso uma conversa, uma anamnese mais detalhada e o médico tem que examinar a paciente para solicitar exames complementares e, em seguida, ter um diagnóstico.”

Helaine Souza e Bárbara Bastos citam ainda a importância de profissionais como fisioterapeuta pélvico e terapeuta sexual após uma avaliação e realização de exames complementares. “O especialista pode identificar os fatores que predispõem ao problema e definir a melhor forma de tratamento em seguida.”

 

Fatores psicológicos podem causar dor durante a relação sexual

 

Especialista comentam possíveis causas das dores durante a relação sexual e o que fazer — Foto: Pexels

Especialista comentam possíveis causas das dores durante a relação sexual e o que fazer — Foto: Pexels

De acordo com a terapeuta sexual, fatores psicológicos influenciam nas dores durante as relações sexuais em algumas mulheres. “O que mais vejo no atendimento em terapia sexual são mulheres com dores vaginais que têm questões psicológicas atreladas. A descoberta da causa demanda uma investigação da história sexual daquela pessoa”, explica a especialista.

Um dos caminhos é compreender o que a paciente aprendeu sobre sexualidade e os exemplos que teve em casa na infância. “E até se existe algum trauma internalizado, seja por experiências ruins ou até mesmo por algum abuso na infância”, explica ela. Os profissionais corretos para esses problemas, conforme sugere a especialista, são terapeutas sexuais e psicólogas com especialização em sexualidade.

 

“Hoje em dia tem sido cada vez mais comum mulheres com Transtorno de Ansiedade, Transtorno de Pânico, estresse, dentre outras questões psicológicas. Por isso a avaliação com o médico e com o fisioterapeuta pélvico são essenciais para encaminhar a paciente para um psicólogo ou psiquiatra. É uma via de mão dupla”, acrescenta Helaine.

 

Quais os tipos de tratamentos possíveis para melhorar esse problema?

O tratamento vai depender da avaliação do paciente, que inclui desde medicamentos prescritos e acompanhados pelo médico, fisioterapia pélvica, psicoterapia e, em alguns casos, também é necessário mudanças de hábitos nutricionais, conforme afirma Helaine.

 

O médico chama de uma abordagem “multiprofissional”, já que depende de como o ginecologista vai afastar uma causa orgânica causadora da dor. Ele cita o caso do vaginismo, que pode ter uma relação emocional.

 

“O vaginismo é uma contração involuntária da musculatura perineal em que a paciente contrai a musculatura durante a relação, não porque quer, e pode causar dor. Mas não significa que ela não possa ter uma infecção. O especialista trata essa infecção, mas depende também de outros profissionais, como um psicólogo, um psiquiatra, é um acompanhamento em conjunto.”

 

Em relação à fisioterapia pélvica, Helaine Souza afirma que a mulher só tem a se beneficiar. “Com objetivo da normalização da musculatura do assoalho pélvico em relação a tônus, à flexibilidade e relaxamento. A fisioterapia dispõe de vários recursos que possibilitam o alcance destes objetivos”, destaca a fisioterapeuta, citando a eletroestimulação, fotobiomodulação, biofeedback e exercícios para melhora de controle motor.

 

Já a terapia é um trabalho mais individualizado, afirma a sexóloga. “Já que depende das causas a serem trabalhadas. Daí a importância de investigar a fundo para direcionar o tratamento mais adequado para aquela mulher. Porém, algumas condutas costumam fazer parte do tratamento: fisioterapia pélvica, atividade física regular, atividades que geram bem-estar, mudanças na alimentação, regulação do sono e continuidade na terapia.”

 

Cuidados que podem colaborar para amenizar ou prevenir dores

 

Especialistas recomendam evitar ter relações sexuais enquanto as dores persistirem, já que isso pode agravar o quadro — Foto: Pexels

Especialistas recomendam evitar ter relações sexuais enquanto as dores persistirem, já que isso pode agravar o quadro — Foto: Pexels

A mulher deve estar atenta à saúde íntima para poder amenizar as dores e também como prevenção para que elas não apareçam. “Ter a frequência de ir ao ginecologista, pelo menos uma vez ao ano, evitar uso de produtos íntimos com muitas químicas, cuidados com as vestimentas, além de, claro, construir uma relação sexual saudável com o próprio corpo”, sugere a sexóloga.

 

O médico Carlos Moraes faz uma ressalva: “Depende um pouco da situação. Se a paciente está com uma infecção aguda, por exemplo, só o tratamento vai resolver o problema da dor. Eventualmente, mulheres podem ter quadros de dor pélvica crônica e existe uma infinidade de tratamentos que a paciente pode procurar para aliviar esse sintoma.”

 

Neste caso, o especialista dá alguns exemplos de atividades que podem ajudar, como um tratamento de suporte psicológico, acupuntura e algumas atividades de lazer. “Tem uma série de outras atividades que podem melhorar o bem-estar da paciente em função do quadro de dor, mas depende muito de cada situação”, reforça.

 

Helaine Souza acrescenta que atividades físicas são essenciais para a saúde como um todo. “Porém, deve-se tomar alguns cuidados para evitar a sobrecarga da musculatura do assoalho pélvico. É ideal que a mulher converse com um profissional especializado na área para que possa orientar”, sugere.

 

Não é recomendado ter relações em casos de dor durante o sexo

A mulher deve evitar ter relações sexuais no caso de sentir dor, alertam os especialistas. “Esse incômodo é apenas um sinal de que algo está errado e é extremamente desconfortável para essa mulher”, ressalta a fisioterapeuta pélvica.

Bárbara Bastos diz que é recomendável evitar “a penetração” e orienta: “Ela deve priorizar uma consulta médica para começar a investigação e solução do problema. Reforçar a dor com relações sexuais frequentes pode traumatizar a própria mulher e fortalecer a ideia de que o sexo não é bom.”

A especialista afirma ainda que esse trauma pode contribuir para que a mulher evite os momentos de intimidade com a sua parceria. “O sexo começa a ser associado a uma experiência ruim, negativa. E é bom lembrar que relação sexual não é somente penetração e, por isso, é uma ótima oportunidade para o casal descobrir coisas novas, que fujam do óbvio, e façam a mulher relembrar como o sexo pode ser muito prazeroso.”

 

A automedicação, prática entre 89% dos brasileiros, pode mascarar um problema

Um levantamento realizado em 2022 pelo Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico (ICTQ) revelou que 89% dos brasileiros têm o hábito de se automedicar. Entre os mais jovens, que correspondem ao maior público, 95% têm entre 16 e 34 anos. Esse é apenas um dado para alertar as mulheres que recorrem a anti-inflamatórios para amenizar a dor nesses casos.

 

“A automedicação é sempre o pior caminho. Ao mesmo tempo que pode mascarar um problema que merece um tratamento específico, traz riscos à saúde desta e de outras partes do corpo”, alerta Helaine, orientando que a mulher procure conhecer melhor o seu próprio corpo para entender os sinais que ele transmite: “Sentir dor não é normal, o sexo tem que ser prazeroso.”

 

O ginecologista reforça a opinião da fisioterapeuta pélvica e alerta para os riscos: “É difícil encontrar um médico que não condene a prática. Tomar um remédio para aliviar um sintoma, sem a gente ter o diagnóstico de certeza, é sempre muito complicado. E os anti-inflamatórios têm também os seus efeitos colaterais.”

 

“Os não esteroidais, por exemplo, são muito prejudiciais se usados indiscriminadamente”, acrescenta a educadora sexual: “Procure um profissional da saúde capacitado para cuidar de você e da sua saúde íntima.”

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